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terça-feira, abril 09, 2002
Dos animais sentimentais
(carta aberta para uma certa pessoa que já a recebeu)
Coloquei sua foto bem na minha frente, num porta retrato de aço que ganhei de natal. A foto é assim: você está abraçado comigo, mas eu estou olhando pra longe, e você está encarando a câmera. É bom, porque parece que você está aqui do meu lado, vigiando o que eu ando fazendo do meu tempo livre. E quando eu estou às voltas com as pessoas que odeio, você também está aqui. E o seu olhar se transforma de vigilância divertida -como se você estivesse lembrando de uma piada antiga - a compreensão resignada, do tipo “deixa que é assim mesmo...” O seu rosto na foto vai mudando conforme o meu dia passa, e só eu tenho o poder de ver essa leve diferença de expressão, que pra mim é tão nítida, e pros outros é sintoma de psicose. Você está tão bonito. Me dá até vontade de sorrir. E no auge da minha melancolia diária eu olho pra você e sorrio, e quase jogo fora todos os meus planos e vou pra casa comer pipoca e assistir sessão da tarde.
Achava que quando você fosse embora eu tiraria essa foto da minha frente. Pra quê tanta tortura, meu deus. Você tão longe....Eu sozinha, no meio dos urubus de sempre. Eu sozinha, achando a vida chata. Você sozinho, achando a vida interessante e nova, e perfeitamente solitária, como ela deve ser. Você é um animal que sobrevive sozinho, eu sou um animal sentimental. Como foi que a gente se encontrou mesmo? Ah, lembrei: você andava devagar e eu te agarrei pela cintura e disse: “agora o caminho é esse”, sem nem perguntar sua opinião. Que ousadia, a minha. Eu te agarrei pela cintura e te obriguei a andar rápido, na direção contrária ao vento, fazendo força pra não cair no chão. Logo você, que sempre se deixou levar pela correnteza. Eu não me deixo levar pela correnteza porque tenho medo de bater contra as pedras. Você se deixa levar porque sabe que a correnteza termina num lugar secreto e bem calmo, cheio de animais solitários e satisfeitos.
Se eu pudesse, iria até aí te dar um beijo. Se eu pudesse, teria um filho seu; não deixaria você ir embora e te trancaria no meu armário, no meio das minhas calcinhas e dos meus incontáveis segredos. Se eu pudesse, diria que te amo, que te adoro; ficaria cega de amor e desejaria só você.
Só que de que adiantaria tudo isso, se essa não sou eu? Eu sou um animal sentimental, inconstante e volúvel, que não consegue decidir entre café ou Nescau de manhã. E também não é isso que você quer. E também desaprendi a amar animais solitários, que andam a favor do vento, cheios de planos no bolso, e com toda a paciência do mundo para realiza-los.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 5:17 AM
Tenho vontade de dormir
Quando tudo o que era verdadeiro torna-se mentira; quando não há mais doce em casa; quando se descobre que o amor acabou; quando se conclui que ele nunca existiu; quando a fome é maior que a vontade de comer; quando a festa já acabou, mas o príncipe encantado não apareceu; quando o cotidiano não tem mais graça; quando os amigos se tornam repetitivos; quando a TPM não acaba nunca; quando só o êxtase resolve; quando é difícil sorrir o tempo todo; quando é impossível terminar um livro; quando nada mais surpreende, ou alegra, ou assusta, ou enfeitiça; quando não se espera nada e nada acontece; quando os dias se arrastam e as horas pingam; quando as rugas começam a incomodar; quando se percebe que não somos mais tão bonitos como antes; quando o fim de semana não é esperado; quando o aprendizado se torna improvável; quando o cinema perde o efeito; quando bater de carro significa sentir-se vivo; quando não há possibilidade de paixão; quando as cartas não são mais piegas; quando as frases não são interessantes; quando é fácil prever o que irá acontecer num bar antes de pisar nele; quando não há motivos para se olhar no espelho; quando se pode sentir a obrigação de dizer bom dia; quando é um esforço sobre-humano levantar da cama; quando a paciência acaba; quando sinto sono.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 5:11 AM
Banquete
Natal e fim de ano é tempo de suicídios, dizem. Não sei se acredito, mas a verdade é que a minha TPM constante acordou mais exaltada esta manhã de 25 de dezembro, o que não chega a ser uma coisa ruim. Não é ruim porque já me acostumei tanto com ela, que é nos picos de audiência que eu produzo mais, que eu faço o meu cérebro andar pra frente, e não ficar estacionado naquela felicidade mansa, que apenas sorri. A minha TPM dá gargalhadas ensandecidas, e daí? É claro, estou explodindo textos pela boca, a ponto de me levantar de madrugada e procurar freneticamente por uma caneta e um bloco, e sair anotando, anotando, anotando esse amontoado de idéias que surgem e não me permitem sequer colocar uma vírgula porque não há tempo para respirar, senão as idéias vão embora para sempre, ou voltam para o buraco obscuro de onde saíram. Fico anotando frases sem fim, que ocupam páginas inteiras, numa letra que mais parece uma transcrição do além, para os que acreditam nisso. A quem interessar possa: eu não acredito. Acredito que talvez seja a carne de peru que faz meu coração ficar pequenininho, e a minha mão ter vontade própria. Alguém já viu se a carne de peru tem efeito colateral? Escrevo tudo o tempo todo, mas realmente não sei por quê, nem onde vou chegar. Dizem que meus textos são bons, e que eu deveria continuar escrevendo, mas não sei se falam isso para cumprir as leis de boas maneiras, ou seja lá o que for. O fato é que ninguém sabe o que é para mim mostrar o que ando fazendo. É como se eu deitasse nua numa mesa, com um corte que vai do tórax ao ventre, enquanto rostos conhecidos saboreiam minhas tripas, bebem o meu sangue e palitam os dentes com as minhas costelas. E eu, deitada, sorrio a cada comentário dos convidados para o banquete onde eu sou o prato principal: “Bruna, você está deliciosa, simplesmente divina!”, “Você deveria fazer isso sempre”, “Mais uma vez, parabéns pelo jantar”. Sorrio, sorrio, mas não acredito em palavra nenhuma que vem da boca deles, fico achando que são apenas frases soltas pra conseguir arrancar meu coração com os dentes. Eu, que sempre dou meu coração para a pessoa errada, depois fico sofrendo com o vazio que fica no peito. Espero o tempo todo por elogios, mas quando eles vêm eu simplesmente não consigo acreditar que são verdadeiros, me bate uma covardia ridícula por não suportar ser boa em alguma coisa, e ter que carregar a cruz do sucesso, e ter que se superar sempre. Na verdade, me bate um medo de tudo ser uma mentira absurda e sem sentido.
Se ao menos houvesse paixão. Se ao menos meu estômago estivesse sendo mastigado para provocar êxtase em terceiros, ou se o meu pâncreas desse vontade de chorar. Mas nada, é apenas interessante. Não vale a minha dor, eu que fico deitada nua quase morta, mas estranhamente consciente de tudo o que está acontecendo. E quando meus órgãos acabarem, eu fico pensando, eles vão passar para outro corpo? E vão deixar a minha carcaça oca de lado, só pele, sem nada dentro? E quando até a pele for consumida, e eu virar apenas um pontinho do escuro, um pontinho que pensa ainda, mas não fala nada? Esse deve ser o pior dos pesadelos: um milhão de pensamentos descontrolados e nem sequer uma mãozinha pra coloca-los em ordem no pedaço de papel mais próximo.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 5:07 AM
terça-feira, abril 02, 2002
Sem idéias
Dando voltas na sala de estar da minha casa, encontro milhões de assuntos para escrever: O abandono. A solidão imposta, a solidão escolhida. O ciúme sufocante. A paixão por todas as formas de vida. O esforço que elas fazem para continuar vivendo. Uma infinidade de temas.
Enquanto faço o almoço, me assalta a idéia de que preciso escrever sobre o que vivi e o que falta experimentar. Lavando a louça tenha a certeza absoluta de que um dia transformarei “Um dia ideal para peixes-banana” no roteiro de um curta. A caminho do ponto de ônibus ou do refeitório do meu trabalho, penso em registrar meu amor pela vida terrena e o menosprezo a existências futuras ou após a morte.
Preciso comprar um gravado para poder sair falando sozinha, pelas ruas, todos os borbotões de idéias que me surgem na cabeça desanuviada ou repleta de preocupações. Um aparelho que me permita sentar à frente da tela do computador e virar a noite escrevendo, detalhando, mastigando sentimentos, até que eles se esgotem e eu não seja mais que uma folha seca, pronta para ser preenchida de sensações novamente.
Mas nunca comprei o tal aparelho, e duvido muito que um dia o faça. E encarar o branco da tela, mostrando o documento à minha disposição, é assustador. Não sei por onde começar. Devo falar da descoberta de que a cada minuto passo por mudanças irremediáveis? Ou trato de assumir minha humildade e escrever sobre tudo aquilo que venho enxergando com olhos de criança de dois anos, para quem cada esquina é um universo novo, com milhares de novas estrelas e planetas descobertos?
O dia em que souber sentar em frente a uma folha e uma caneta e imediatamente sair discorrendo sobre todos os assuntos com fluidez e segurança, será o dia em que me considerarei morta e enterrada sob um manto de emoções balanceadas. Sem angústia, sem milhares de interrogações martelando no meu crânio exposto, de que adianta escrever? A graça da luta será perdida, e sem luta não há comemoração de vitória. E nesse dia, todos os documentos da tela do meu computador serão preenchidos com receitas de bolo para a minha bem-estruturada cozinha.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 6:00 AM
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Atenç?o: isto n?o é um di?rio////
Pesando: 55 Kg.//
Gastando: com nada. Os amigos pagam pra mim :)///
Pensando: Sobre a muito bem vinda leveza do ser.///
Lendo: CRIME E CASTIGO, Dostoievski e TR?PICO DE C?NCER, de Henry Miller
AVISO!!!!!!!!
Agora estou em www.mulherzinhagirlie.blogspot.com
Até que alguma boa alma do Blogger conserte as minhas atualizaç?es.
APARE?AM POR L?!!!
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