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Pequenas Observaç?es sobre Coisas sem Importância

     

quarta-feira, novembro 27, 2002

 
Minha estréia no Maraca

Demorei 25 anos pra descobrir que futebol é bom. Agora estou a pessoa mais chata do mundo, agindo como se fosse tricolor desde criancinha, explicando que meu pai é torcedor do Fluminense e que, por isso, eu naturalmente também seria. Pois eu comprei aquela carteirinha de motorista dos times e peguei uma blusa da minha irmã em que se lia "sou tricolor de coração" e me mandei pro estádio. Pra arquibancada. Pra sentir mais emoção.

Pra começar: como tinha gente bonita. Quase pedi em casamento uns cinco meninos diferentes que passaram perto de mim, mas me lembrei à tempo que renunciei à vida em família, e segurei a minha onda. Depois, me posicionei entre dois amigos, avisando que eles teriam que me explicar os lances, já que eu não fazia (e não faço) a mínima idéia de quais são as regras do futebol - fora, é claro, a de que bateu na rede é gol. Pra completar, enchi o meu rostinho de praticamente francesa de filtro solar 15, porque o sol estava de rachar. E me concentrei no jogo.

Eu sabia que era pé quente. Mas confirmei domingo passado em grande estilo. Foram 3 gols do Flu contra um adversário que era o terror do time, o São Caetano. Em cada gol, eu não me cabia em mim: pulava, abraçava quem estivesse perto (pena que não eram nenhum dos quatro gatinhos pra quem eu quase me declarei) e gritava o mais alto que eu podia. Acho, sinceramente, que eu nunca me senti tão eufórica na vida. Foi êxtase puro, e eu nem me incomodava com a sede, o calor absurdo e as cadeirinhas incômodas.

O bom foi que ninguém percebeu a minha ignorância, misturada que eu estava no meio da galera. O povo gritava: Magno Alves! Eu gritava junto, sem fazer idéia de quem era. Depois gritavam: Roni! e eu ia atrás dos outros de novo. Só quando cantaram Romário é Sinistro! que eu estava situada hehehe.

Hoje o Flu joga de novo contra o São Caetano. Eu não vou, mas como a mais nova viciada no ópio do povo (opa, foi mal, essa era a religião...) vou querer saber o resultado. Que, se for bom, vai resultar em outro Maraca no próximo domingo. Com mais êxtase e meninos bonitos.

terça-feira, novembro 19, 2002

 
Esculacho on line

Ele tem razão. Eu sou um clichê ambulante. hehehehe.

eu: sabe o que eu fiquei pensando? Todo mundo tem uma música do frank sinatra
como tema. sério. todo mundo tem. a minha é New York New York, por razões
óbvias e outras nem tanto. Mas quase poderia ter sido I've got you under my
skin.

ele: bruna, vc se supera com os clichês. pqp

eu: obrigada, eu tb te amo (leia-se: foda-se)

ele: hehehe...fala sério

eu: pode me tratar mal em um momento de extrema sentimentalidade. já estou
acostumada com isso vindo de vc. Um dia fico de saco cheio e etc, mas acho
que nao vai fazer muito diferença, dependendo do estado do seu coraçãozinho.

ele: vc pede, bruninha...ny ny é minha música é foda...
 
Todo mundo tem uma música do Sinatra como tema

Ontem fui ver a estréia de “Edifício Master”, o filme novo do Eduardo Coutinho. O esquema é aquele conhecido: câmera na mão, equipe aparecendo o tempo todo, perguntas do diretor interferindo no áudio e um monte de gente desconhecida contando histórias maravilhosas. Melhores que qualquer tipo de ficção.

Dentre as histórias dos moradores do edifício, a que eu mais gostei foi a de um velhinho. Ele viveu muitos anos nos Estados Unidos e agora fez de um dos conjugados seu lar. Esse senhor conheceu Frank Sinatra. Ele não resistiu e foi falar com o cantor, dizendo que “My Way” era a música preferida dele. Ele gostava porque era como se contasse a sua própria história, já que ele foi uma pessoa que viajou para outro país contra a vontade de sua família e conseguiu crescer lá dentro “da maneira dele”. O Frank, então, resolveu chamar o cara pra cantar a música no palco.

Eu também tenho uma música tema do Frank Sinatra. No meu caso é New York New York. Pode parecer óbvia a minha escolha – já que eu morei lá – mas as minhas razões não são tão ridículas assim. Lembro de cantar New York New York muito antes de aprender a escrever, naquele inglês que só as crianças são capazes de inventar. A culpa era do meu pai, viciado até hoje em jazz e música americana, que me fazia escutar desde pirralha Chuck Berry, Muddy Waters, Chet Baker e, é claro, o Frank.

Depois eu aprendi a cantar a letra de verdade, sem ter que apelar para a imbromation. Mas a melodia era tão familiar pra mim que eu cantava os versos sem prestar a mínima atenção no que estava dizendo, na base do piloto automático, como até hoje eu me pego cantarolando umas músicas da Xuxa.

Foi realmente só quando eu voltei dos Estados Unidos, no ano passado, que eu pude entender como aquela letra é bonita. É a história de um caipira que desembarca de um ônibus em NYC e se depara com as luzes do Time Square, e agitação das pessoas atravessando a rua. O caipira carregado de malas, olhando pra cima, admirando os prédios, exatamente como eu fiz quando pisei naquela terra. (Times Square foi o primeiro lugar que eu conheci da cidade. Meu ex-namorado me levou lá pra mostrar talvez o cartão postal mais famoso de NY. Eu não tinha máquina, não podia tirar fotos, fiquei que nem uma boba olhado pro alto e não parava de falar: “agora eu sei que eu estou mesmo em Nova York”. Depois eu passei a odiar o Times Square. Acho que acabei mesmo me tornando uma típica new yorker, só que bem mais pobre).

E o caipira, quando desce do ônibus com as malas, encara a cidade e diz If I can make it there I’ll make it anywhere, e eu disse isso pra mim mesma, e eu fui capaz de me fazer lá, de “vencer” e quando voltei pra cá não me assustava mais com nada, e tinha a impressão de que poderia realizar de verdade qualquer coisa que eu quisesse: morar no Tibet, virar diretora de uma multinacional, casar ou não. Eu estava procurando emprego, morando na casa dos meus pais, longe do cara que eu gostava na época, mas estava plena de mim, cheia de planos e com toda certeza do mundo de que iria realizá-los.

É claro que essa euforia passou. É claro que alguns velhos medos voltaram. Mas, ainda assim, se eu tivesse que escolher uma música do Frank, seria a manjada New York New. Amo I’ve Got You Under Ny Skin. Adoro Keep On Smilin’. Mas essas são músicas temas de outros, porque, de alguma maneira, eu ainda me sinto o caipira descendo do ônibus em plena cidade grande.

***Na verdade a música fala de um cara que está indo pra NYC, e não um cara que acabou de chegar lá. Mas, dane-se, essa é a minha interpretação livre e acabou. Os outros que façam as suas.


quinta-feira, novembro 14, 2002

 
Eu sou Musa sim

Depois de receber flores virtuais, ganhei uma declaração de admiração cara a cara. Eu estava sentada na minha salinha, fazendo o meu trabalhinho, quando entra um ex- colega de faculdade. Nos encontramos algumas vezes aqui na empresa e sempre batemos papos rápidos. Ele sentou na cadeira ao lado da minha e disse que tinha gente no setor que estava a fim de me dar uns pegas (juro, ele disse "dar uns pegas" e por um monento eu me pensei que era um salaminho no supermercado). Eu perguntei quem era e ele falou que não dizia, mas que tinham dito que "Aquela ruivinha é linda". Uau. Quer dizer então que também dizem isso de mim.

Eu comecei a rir, como faço quando me encontro em situações constrangedoras. O ex-colega completou a pérola dizendo que "botou moral" (juro, ele falou "botei moral") e que disse que se eu fosse ficar com alguém ia ser com ele. Nesse momento eu soltei uma gargalhada (muito, muito constrangedor) e anunciei: "Que coisa, a gente pensa que está sendo defendida por um amigo mas na verdade o amigo também faz parte das feras." Aí, o telefone tocou. Essas coisas de filme às vezes acontecem comigo. O telefone tocou e o papo foi interrompido. Graças a Deus. Como é que as musas fazem nessas situações? Elas têm que me ensinar, agora que faço parte do clã hehehe.
 
Discordando de uma unanimidade

Já recebi de umas três pessoas diferentes o texto publicado na coluna do Jabor no Globo sobre o filme novo do Almodóvar, “Fale com ela.” Eu ainda não vi o filme, mas como sou fã confessa e ridícula do diretor, do tipo que nem vê o que o cara fez e já sai elogiando, tenho certeza de que vou gostar. Como gostei de todos os outros filmes (menos Kika, que eu não vi).

Mas então, voltando ao Jabor: ele escreveu que o amor já não é mais o mesmo visto no filme do Almodóvar, aquele tipo de amor mágico, profundo, único, cheio de entrega e sem medos. Segundo o colunista, o amor agora perdeu a sua magia, o seu toque transcendental. E que a culpa de tudo isso é a nossa sociedade viciada em sentimentos descartáveis, que podem ser comprados. Jabor reclama que não existe mais o cara que definha ao ser rejeitado. Ele diz, com razão, que a gente não diz mais “Eu já amei” e sim “Quantos eu amei.”

Só que eu não concordo. Devo ser a única pessoa do mundo que não concorda com o que ele escreveu, e provavelmente vão rolar comentários do tipo “Ih, ela não entendeu nada”. Pode até ser que eu não tenha entendido nada o que ele tinha a dizer, mas entendi o que eu tinha que entender. Porque eu acredito que a partir do momento que uma pessoa lê um livro, ou assiste um filme, ou observa um quadro, ela entende o que quiser disso tudo, e não o que o artista quis passar. Aliás, o que o artista quis passar pouco importa, o que a gente sente em contato com a tal da “arte” é que é o grande lance.

Mas então, o Jabor e a minha discordância. Eu acho que esse tipo de amor que de que o Jabor fala, esse sim foi um amor criado. O amor Romeu e Julieta povoa as nossas mentes desde que somos pequenos (príncipes encantados, felizes para sempre, etc). A gente cresce achando que tem que encontrar o grande amor e aí, tchan nan, passamos a nossa mísera existência procurando por ele. Daí as mulheres viram mesmo caçadoras e os homens têm duas ou três namoradas ao mesmo tempo. Tudo está na procura. Enquanto não acho, posso fazer o que quiser, com quem quiser, até ter o Meu Grande Amor ao meu lado na cama.

Eu já sofri por amor. Quem não sofreu? Emagreci horrores (mas foi ótimo, todo mundo elogiou) e fiquei noites sem conseguir dormir depois que terminei com meu primeiro namorado. No segundo, eu chorei e fiquei um ano ainda gostando dele. No terceiro, eu fiquei chorosa um mês e depois foi bola pra frente. Algo me diz que se houver um quarto eu vou tirar de letra quando a história terminar.

Parte dessa mudança foi causada pela experiência, é claro. Parte porque eu simplesmente não estava a fim de sofrer. E parte, finalmente, por causa da TV. Eu via aquelas sitcoms e ficava impressionada como aquelas mulheres terminavam com os amores de suas vidas e depois continuavam na boa, levando a vida novamente. Eu achava que tudo bem, era ficção – mas, por outro lado, por quê não agora dessa maneira.

Eu até já conheci gente que levou o sofrimento por amor ao extremo. O primo de um amigo meu se enforcou depois que acabou seu relacionamento. Quando soube da história, eu não pensei: “Nossa, que cara romântico! Quão profundo era esse menino!” O que eu pensei foi : “Que idiota.” Eu acho uma idiotice sem tamanho se matar por amor. Ninguém merece uma vida nas mãos.
Mas é mais bonito e mais cheio de esperança acreditar no que o Jabor disse. Que devemos parar para analisar as coisas que estão acontecendo com os nossos sentimentos. (Isso aí eu até concordo; sou contra essa fast food de paixões). Mas “tomara que venha aí um novo movimento hippie”? Foi mal, Jabor, gosto muito de você mas essa não cola mais não. São palavras bonitas sem nenhuma possibilidade prática. É uma merda do jeito que está, concordo, mas também era uma merda em 80, 70, 60. Se tem uma coisa que a gente deve fazer, é parar de achar que a felicidade está em encontrar a alma gêmea. Isso é pobreza de espírito - a felicidade até existe, se chama Abrolhos e é pra onde eu pretendo ir no ano que vem.

(Aí embaixo o texto do jabor, pra quem ainda não leu)

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O amor deixa muito a desejar...

Fui ver o lindíssimo filme do Pedro Almodóvar, o Fale com Ela, e saí pensando num conto da Carson McCullers, em que um homem conta que, antes de amar de novo uma mulher, ele estava aprendendo a amar as pedras, as árvores, as nuvens... Nesse grande filme de Almodóvar, vemos amores raros, feitos de entrega, feitos de compaixão, como uma "doação ilimitada a uma completa ingratidão", como escreveu Drummond, aliás, o poeta do amor impossível, que é o único e verdadeiro amor.

A vitória do Lula também foi uma fome de amor política contra a era da técnica racionalista. Seu governo pode virar até um crime passional ou um folhetim melodramático, mas, hoje, é um grande desejo de happy end para todo o povo. Por isso, pergunto: onde anda o amor? Até isso o mercado estragou?

Sim. O amor já teve um toque sagrado, a magia de uma inutilidade deliciosa, já foi um desafio ao dia-a-dia que nos tirava da vida comum.

Hoje, o amor, como tudo, está perdendo a transcendência. Não existe mais o amante definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, não existe mais a simbiose que nos transportava a uma eternidade semi-religiosa. O amor tinha uma fome de bondade, de compaixão pelo outro, de proteção à pessoa amada. Isso está acabando. O amor já foi analisado por todas as ciências, a psicanálise mapeou as loucuras que estão sob sua poética, o ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produção.

Por isso, o filme de Almodóvar é tão belo e oportuno. Temos de fazer filmes assim, cheios de amor, sem efeitos, sem denúncias. Se eu, um dia, filmar de novo, será para celebrar o silêncio dos amantes ou a beleza do inútil. O amor perdeu a gratuidade, as pessoas "amam" por desejo de ter um amor que não sentem mais. O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar, não tem mais a utilidade do sacrifício pelo "outro". O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de "olhos de ressaca", nem nas "pernas de Fulana", nem temos as bocas beijadas por amantes "tutti tremanti", nem o formicida com guaraná. Não se diz mais: "Deus sabe quanto amei!...", mas "Deus nem sabe quantos (as) amei..."

A publicidade devastou o amor, falando na "gasolina que eu amo" ("Shell que j'aime"), no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir. Como comer todas as moças da lingerie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade total, por si só, levaria a uma assexualização desértica. A sexualidade é finita, não há mais o que inventar. Já o amor, não... O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes.

Amor e sexo Mas, hoje o mercado exige a satisfação total no amor ou o dinheiro de volta.

Como isso é impossível, deriva para o sexo ou para a sedução. O amor passa a buscar não mais uma entrega, mas um domínio. O amor vira um objeto de consumo, fast-love, com obsolescência programada para durar pouco. O amor deixa muito a desejar. Em geral, o amor existe hoje como uma espécie de adoçante para justificar, legitimar uma tesão ou uma conquista. Os amores duram três edições de Caras. Os casais se permutam num troca-troca rápido e quantitativo. As próprias mulheres estão virando dom-juans. Vejam o périplo de jovens atrizes que vão comendo, um por um, os modelos que surgem nas revistas, elas, que deviam se manter damas inatingíveis para pálidos quixotes românticos.

Estamos com fome de amor cortês, num mundo em que tudo perdeu aura. O terrível bombardeio que a cultura americana está fazendo nos sentimentos é invisível, mas é pior que as bombas contra o Iraque. A cultura americana está criando um desencantamento insuportável na vida social. Tudo é tolerável, num arrasamento de mistérios. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, sem uso, vejam as mulheres amontoadas na internet, nuas, com números - basta clicar e chamar. Estamos com fome de infinito em tudo, na vida, na política, no sexo. Por isso, o filme de Almodóvar, cheio de compaixão sussurrada, apoiada na trêmula beleza dos balés de Pina Bausch e no Caetano cantando um pranto dolorido, parece um segredo religioso, uma saudade inexplicável de alguma coisa que existe aquém, antes da vida.

Nos anos 60, liberdade sexual foi uma questão política. Hoje, podemos tudo, podemos casar até com jacarés ou macacas, sem escândalos, desde que não prejudique a produção. Mas, o que invisivelmente está virando uma nova necessidade política é o amor e seus subprodutos: compaixão, paz, justiça.

Aposto que virá aí um novo "desbunde", um novo movimento hippie, sem utilidade, mas sem melancolia autodestrutiva, vêm aí marchas pelo amor, porque ninguém está agüentando mais somente "utilidade" e "desempenho", poder e sucesso. Estamos virando coisas. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as árvores, as nuvens, até chegarmos a nós mesmos... E acho que isso vai surgir na América, como foi nos anos 60 - a luta pelos direitos civis será agora a luta pela beleza da inutilidade.
Arnaldo Jabor


segunda-feira, novembro 11, 2002

 
Avalon

Sexta feira fui dormir muito cansada de pessoas ao meu redor, e acordei no sábado com a seguinte palavra saltando pela boca: Avalon. Meu pai se preparava para ir embora, e eu consegui arrumar a minha mala em cinco minutinhos com nada: um biquini, um short, uma calça e milhões de CDs + dois livros. O telefone celular eu esqueci em cima da mesa, desligado. Esperava ansiosamente que me esquecessem também. Odeio quando tenho obrigações sociais a cumprir. Odeio. E, se Avalon não tivesse me salvado, meu fim de semana seria preenchido com as obrigações de sempre.

Minha casa fica no alto de um morro, virada pra um vale, a duas horas do Rio. Quando o sol se põe, ele desce milimetricamente no meio do vale, e enche a sala com aquela luz amarela de final de tarde. O pôr do sol dura, numa boa, mais de uma hora. Porque depois que o sol desce, o vale fica todo rosa, e começa a fazer um frio inacreditável para essa época do ano. Eu nunca visto o casaco. Fico com os braços de fora, abraçando as minhas pernas, até a noite cair de vez, e só então estou liberada para fazer outras coisas.

No sábado eu me estatelei na beira do lago. Fiquei sentindo o sol queimando as minhas costas protegidas com filtro solar. Quando o calor ficava bizarro, eu mergulhava na água gelada e de vez em quando sentia um peixe encostar no meu pé. À noite, tomei um porre acompanhando os amigos do meu pai: eles com a cerveja e eu com o vinho. Tomei uma garrafa inteira, e fui me escorando pela parede até o quarto da minha irmãzinha, onde desmaiei na cama de roupa e tudo. Ninguém reparou na minha ausência. Ficaram conversando até 2h da manhã sobre todas as besteiras do mundo.

No dia seguinte, terminei o meu livro. Peguei o outro e descobri um terceiro interessante nas estantes empoeiradas de Avalon. Acordei antes de todos e sentei na varanda pra ver o sol nascer. Depois comi. Mandei a minha dieta pro inferno, já que não é todo dia que a gente se vê assim, leve, sem ter que comparecer a nada, nem sorrir falsos sorrisos, nem sentir que é preciso ser simpático, sempre. E eu decidi que quando for bem velha vou morar em um sítio, cuidar do jardim e não vou ter televisão. Livros e CDs sim, aos montes, mas nada de TV. Dane-se cinema, show, barzinho. Cada dia que passa eu vejo o quanto tudo isso é um prazer falso, implantado na cabeça da gente. Lavagem cerebral.

Quando eu estiver bem velha, provavelmente Avalon já não vai mais existir. Paciência. A gente sempre acaba descobrindo outro ponto de desligamento com o mundo, mesmo que não tenha um pôr do sol de espetáculo.

quinta-feira, novembro 07, 2002

 
Cotidiano

Cada dia que passa é mais difícil pra mim dizer alguma coisa. Cada dia eu tento puxar lá do fundo alguma coisa a dizer: olho bem para o meu cotidiano procurando o extraordinário, o excêntrico, fugindo da vulgaridade; mas não há nada. Contas de bancos, CPFs atualizados, financiamentos de carro – eis a minha vida. Eu sou uma pessoa adulta. Eu tenho que controlar os cheques que voltam e supervisionar meu saldo com olho grosso. Eu tenho uma reputação a zelar.

Mas me dá um sono. Tenho tanto tédio de falar sobre as partes burocráticas do mundo quanto os outros têm de ler sobre isso; e aí chegamos a um impasse. Porque não há mais nada. Será que eu vou ser pra sempre isso? Pra sempre esse rosto encarando a tela em branco, muito nervosa por não ter o que dizer, à procura de textos legais como os que já foram escritos, um dia, por esses mesmos dedos que hoje estão imóveis na minha frente. Meus dedos servem pra segurar cigarro e fazer carinho em olhos e bocas; por que não servem pra digitar?

A coisa mais normal do mundo é isso. Eu sinto falta dos elogios. Dos comentários legais. Ontem saí com um pessoal e um dos meninos da mesa disse que lia os meus textos. Uau. É tão difícil imaginar isso. Enfim, ele tinha lido o meu blog, e deu um sorrisinho malicioso quando eu mostrei as minhas fotos de Jericoacoara. Mas de que estou reclamando? As coisas que acontecem comigo são de domínio público, e eu nunca na minha vida encarcerei sentimento em nome de honra ou orgulho ou o diabo que o carregue.

Tudo aberto, justamente para fugir dos assuntos de contas de banco e problemas com cartão de crédito. Tudo aberto; e eles sabem tudinho o que penso sobre eles mesmos. É meio esquisito, mas também é interessante, escrever um texto sobre alguém e depois avisar ã pessoa que existe algo escrito. As pessoas às vezes me odeiam, mas na maioria dos casos sentem-se lisonjeadas. Quem não sentiria? Ser a musa inspiradora de uma mente que tenta fugir de do cotidiano e do vulgar. Mas eu ainda me sinto como se tanta sinceridade não contasse a meu favor. Como se eu estivesse mostrando demais do meu corpo praticamente novo.

É um risco que eu sempre corro. E que, de certa maneira, eu quis correr, depois que coloquei isso tudo aqui, pra uns poucos mas muitas vezes desconhecidos lerem. E quem eu amei também lê e, quem sabe, quem eu vou amar também lê, se é que um dia eu vou achar alguém pra amar de verdade, sem fantasiar sentimento como venho fazendo desde que me entendo por adulta. Desde que pago contas, e devolvo cheques e encaro o computador sem ter o que dizer.

quarta-feira, novembro 06, 2002

 
Cartas

Agora leio as cartas que chegam para a minha empresa. Não tinha essa função, mas recentemente eles me colocaram para tapar um buraco, já que o meu verdadeiro serviço está paralisado. Trabalhinhos temporários. Agora eles me entregam as cartas e eu leio mais ou menos cuidadosamente e depois faço um relatório com as que valem e passo pros meus chefes.

Mas só algumas cartas valem. Tem muito maluco que escreve pra cá, dizendo que vai colocar bomba na empresa, ou pedindo a volta da Loteria Trevo, seja lá o que isso for, ou pedindo emprego. Muitos pedem emprego. A maioria não sabe escrever nada, e quando escrevem tem sempre um monte de erros de português e com letras totalmente indecifráveis.

Outro dia abri uma que tinha uma foto de um cara baleado. Não aquelas fotos de laudos de perícia, uma foto tirada pelo parente do cara na hora que ele foi assassinado. É mais sinistro do que pensava, ver uma pessoa baleada. Tem aquele buraco nas costas do cara e sangue esparramado pelo chão, e um cachorro chegando perto pra cheirar o morto. O cara estava lá caído em uma posição que só um baleado pode cair: agachado pra frente, meio de lado, um braço aqui e uma perna acolá.

Tem vezes que eles, os remetentes, mandam fotos de enterros. A coisa mais comum no interior do nordeste é fotografar enterro. Eles posam ao lado do caixão, o defunto estendido e coberto de flores, de olhos fechados e boca costurada. As pessoas que estão no enterro ficam prostradas ao lado do caixão e encaram a câmera, muito sérias, mas sem lágrimas. Ainda não sei por quê eles tiram essas fotos.

Tem gente que manda fotos de parentes. Tem gente que manda foto de si mesmo com dados de currículo. Tem gente que manda desenhos. Eu tinha feito uma lista de coisas pra escrever sobre essas histórias, mas decidi que não precisava não. É muita coisa que acontece. A gente acha que certas coisas são impossíveis mas, quando vê, aconteceu ali do lado, na nossa frente, fotografado.


terça-feira, novembro 05, 2002

 
Sexo

O irritante de tudo isso é apagar e reescrever duzentas vezes até que saia alguma coisa que faça eu me sentir esvaziada. Isso aqui está transbordando – pode ser de esgoto ou de água cristalina, tanto faz – e eu não consigo me deixar levar. Escrevo, apago e altero o tamanho da letra vezes seguidas, sem me dar por satisfeita. Já não há o incômodo que me faz falar com intensidade e assombro, já não há nada que me pese nos ombros e que me obrigue a despejar tudo sobre os outros. Se tivesse hoje uma sessão de análise, não teria o que contar. Mas já não tenho análise nem crise, sou mais uma entre tantos. Geralmente sou assaltada por essa onda de alto estima quando as coisas estão paradas. Quando nada acontece, tudo tem essa cara de que está bem. Parece até que eu estou fazendo tudo certinho. Quanto erro! Certinho não existe. É que apenas o vento ainda não começou a soprar, mas quando vier vai devastar tudo e deixar as casas no chão.

Hoje tenho uma vontade enorme de comer. Muita vontade de comer. Não pela fome, mas pelo prazer, e eu ando precisando de prazer. Às vezes sinto falta de sexo, mas depois concluo que não é bem falta o que eu sinto, é a vontade de ter alguém bajulando e ligando, alguém que eu possa dizer: esse cara me quer, tem o maior tesão em mim, há-há-há. Alguém pra me fazer sentir desejável e, por conseqüência, um pouco superior ao resto dos humanos. Na teoria eu tenho bajuladores, mas de vez em quando eles se escondem pra me fazer voltar a ser humilde. Eu volto, eu volto. Sempre fui humilde, apesar de achar uma tremenda perda de tempo a humildade. Quando estou humilde eles dizem: ela é uma menininha. Quando não estou, eles acham: ela é uma diva. E avisam: diva só serve pra gente comer. Qual seria a minha função, então? Eu, que fico oscilando entre os dois mundos, sirvo pra quê?

Mas alguma coisa me diz que a falta de dramaticidade de hoje tem a ver com a ausência de sexo. Sexo é dramático, na sua essência. Principalmente para as mulheres, que vivem misturando alhos com bugalhos e buscam amores entre trepadas homéricas. Não tem jeito não, se foi bom a vontade é de falar que ama. Mesmo que não ame. Faz parte da dramaticidade da cena. E depois, quando o sujeito em questão desaparece, o mundo fica cinza e surgem aos borbotões milhões de criações estéticas e perfeitas. Se o sujeito aparece como manda o figurino, o mundo fica colorido e, da mesma forma, a vida se enche de inspiração.

O problema é tudo o que o sexo traz com ele. É um ritual demorado, que exige encontros de apresentação e jogos de conquista. O sexo há muito tempo não é natural, não é puramente carnal e cheio de tesão. Tem um monte de filosofia-lixo envolvida. Uns poucos, uns que se contam nos dedos, ainda fazem pela impulsividade do ato. Mas a grande maioria se encaixa na luta homem x mulher; não entendem que pra uma trepada inacreditavelmente inesquecível é preciso homem + mulher, sem conquistas, sem lutas. Apenas o desejo, aquele toque inconfundível e raro que algumas pessoas já sentiram com outras, o toque que dá vontade de transar em qualquer lugar, a qualquer hora.

Mas agora fazer sexo é como ir a uma repartição pública. Se não, podemos ser taxadas de putas, de fáceis, de promíscuas, de “maluquinhas”. Hoje em dia, a gente sai três vezes com o mesmo cara antes de poder dar pra ele. E o cara ainda tem que achar que ele foi muito macho de convencer a nos levar pra um motel. Essa porcaria de convenção social baseada no século XVIII. Vai ver por isso a arte anda tão ruim: o mundo nunca foi tão puritano.

 
Semi-adormecimento

Aquelas coisas que só acontecem no estado de semi-adormecimento. Era uma dor de cólica que havia me acordado e que estava me deixando de mau-humor pelos minutos de sono perdidos. Nada de poesia e sentimentalismo: ficar menstruada é uma merda. De repente, a dor parou e eu fiquei flutuando no colchão. Flutuando. Ia no teto e voltava para a cama, descrevendo um oito no ar: primeiro meus pés desciam, depois subiam, depois desciam de novo e pousavam. Meus joelhos, minha barriga e o resto do meu corpo seguiam depois. Iúúúúúhuuuu, de volta pra cama. É preciso aproveitar a sensação enquanto ela está durando. Minha cama é o tobogã. É preciso aproveitar enquanto a dor da cólica não volta e Iúúúúhuuuu, de volta pra cama, mais uma vez. Não era o meu corpo físico, não era o meu espírito, era só a onda, o vai-e-vem que me embalava pro sono. Eu pensava: que delícia, enquanto sentia a onda chegar de novo. E de novo. E de novo.

Até que finalmente eu dormi. Dormi e sonhei que tinha um namorado japonês, e que ia transar com ele e pensava: “Caramba, é verdade, eles realmente têm pau pequeno!” Mas isso acabava não sendo um problema muito grande, porque o menino era legal e a gente ia levando. Bom, lá pro final do sonho o namoro tinha terminado e nós éramos apenas bons amigos. Não sei bem se o motivo do término tinha sido o tamanho do pênis dele.

No outro dia, a confusão mental causada pela TPM: dirigindo e pensando, caminhando e pensando, trabalhando e pensando, jantando e pensando. Não há um minuto que o exame de consciência não conheça. Se eu fosse casar seria com o Fernando Pessoa – mas daí a gente se separava rápido porque ficar com um cara desses o tempo todo ao lado seria loucura ou suicídio na certa. Nunca falei da aversão à poesia? Eu tenho; odeio. Gosto de autores. Poetas. As coisas que eles dizem. Mas de poesia não. Há uma diferença muito sutil entre gostar de poesia e gostar de poetas. Um dia explico.

Fora isso, descobri o quão divertido meu quarto pode ser. Não saía de casa há uma semana, resolvi ir passear no domingo. Que estranho. Achei estranho. Fui pro Baixo e senti saudade dos meus livros, dos meus CDs e do meu recém adquirido aquário. Toda vez que pedia uma coca eu fazia mentalmente a conta de quanto estava gastando para nada. Saudade do meu computador, da minha solidãozinha bem vinda. Demorou, mas finalmente eu descobri que não preciso disso: de encolher a barriga e empinar o peito toda hora que for ao banheiro no Hipódromo (elas fazem isso, não fazem?). Meu quarto é legal. Meus peixinhos também. E o convívio social humano, sem álcool pra ajudar, fica arrastado demais. Estou dura pra beber. Então fico em casa com os meus peixes e com Fernando. Odiando para sempre o meu futuro marido poeta.

Atenç?o: isto n?o é um di?rio//// Pesando: 55 Kg.// Gastando: com nada. Os amigos pagam pra mim :)/// Pensando: Sobre a muito bem vinda leveza do ser./// Lendo: CRIME E CASTIGO, Dostoievski e TR?PICO DE C?NCER, de Henry Miller AVISO!!!!!!!! Agora estou em www.mulherzinhagirlie.blogspot.com Até que alguma boa alma do Blogger conserte as minhas atualizaç?es. APARE?AM POR L?!!!

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