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quinta-feira, maio 23, 2002
Amadora
Eles dizem que eu preciso encontrar meu estilo. Será que precisa ser encontrado? Sempre achei que esse tipo de coisa surgisse das profundezas – uma espécie de maremoto interno que vai percorrendo o corpo até inundar as cidades dos meus dedos. Nunca tentei me equiparar aos que conseguem agir sem se jogar de cabeça contra as pedras; esses pra mim são semideuses.
Mas eles querem que eu encontre um estilo. Eles querem que eu tenha uma marca intransferível, um tom pessoal e único. Eu digo que é impossível, porque as minhas variações de humor são inúmeras e rápidas demais. Eu explico que levei toda a minha vida breve vida pra descobrir quem eu sou, pra entender as minhas atitudes, e que não quero mais vinte anos procurando as palavras que melhor se encaixam em mim. Eu confesso a eles que mesmo depois de todo esse tempo ainda não sei o que sou, e nem como agir. E que a única coisa que descobri é que o espontâneo é sempre mais interessante.
Eles dizem que eu devo escolher uma parte de mim e explorá-la – mas eu não sei dividir o que é caos. Me mandam racionalizar o que pra mim é apenas vômito; me orientam a profissionalizar o que eu faço questão de que seja irresponsável. De repente eu estou aprisionada de novo naquilo que devo ser. Eles não sabem que não consigo definir nada com apenas uma palavra. Que pra mim qualquer coisa no mundo merece, pelo menos, uma frase de definições. Queria fazer com que compreendessem que restringir um sentimento é criminoso, é cruel, e que eu não estou aqui pra me castrar ainda mais do que já me castro.
Eles suspiram e apenas dizem: “Pois não espere muito mais das coisas à sua volta.” Eu me pergunto, perplexa, qual é a grande novidade. Eu já sabia disso há muito tempo. E simplesmente resolvi não me importar, e continuar com essa vida amadora que eu ando vivendo.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 4:01 PM
terça-feira, maio 21, 2002
Qual é o problema?
ou A dificuldade de ser Shine Happy People
A verdade é que é muito difícil saber por onde começar a se questionar. Todos os dias eu acordo, me olho no espelho, me acho gorda, e saio pra trabalhar. Todos os dias eu passo pelo porteiro, dou bom dia, e ele faz um comentário sobre o tempo. Minha avó reclama que eu não converso muito com ela, então quando chego do trabalho me sento na saleta pra assistir a novela da noite, e faço comentários sobre a roupa das atrizes. Nós rimos um pouco. Depois eu tomo um banho e saio pra algum lugar. Encontro amigos, falamos umas bobagens e algumas coisas sérias a respeito de nossas vidas, e eu volto pra casa sã e salva.
Quer dizer, outro dia fui assaltada. Pela primeira vez na minha vida - o que não deixa de ser notável em se tratando de uma pessoa que sempre morou no Rio de Janeiro. Primeiro quis comprar gás de pimenta pra jogar nos olhos do próximo engraçadinho que tentasse levar meu dinheiro. Depois me falaram que isso também era perigoso, que era melhor eu dar a grana logo pro cara, pra me livrar de alguma violência, ou de uma perseguição implacável. Sem discutir muito o assunto, concordei, e acabei cancelando a minha encomenda do sprayzinho mágico .
Às vezes eu fico muito triste, mas acabo chegando à conclusão de que isso não passa de um ciclo de hormônios muito próprio da mulher; às vezes eu choro de noite pensando em pessoas distantes e impossíveis; às vezes acho que o resto do mundo não serve pra nada, e que eu sou a minha melhor companhia. No resto das vezes o que passa pela minha cabeça é confusão: texturas, filosofias, metas. Nada disso existe, é tudo uma massa que devora o meu cérebro, que já deve estar do tamanho de um feijão depois de tanto tempo sendo devorado.
Talvez eu esteja passando uma impressão errada. Eu acho que estou confortável dentro dessa lei que diz que todos nós temos que agüentar os desconfortos da vida. Quero dizer, confortável fisicamente, mas um pouco fora do eixo que faz o mundo girar. Eu precisava aprender a girar junto com o mundo pras coisas “evoluírem melhor”. Mas eu tento encontrar a minha própria rotação, e ela é diferente da velocidade e do sentido da rotação da Terra, o que torna tudo um pouco mais doloroso e difícil.
Talvez, ainda, eu esteja parecendo descrente de que as coisas do mundo possam ser boas e terminar com um Happy End com pôr do sol e tudo. Mas o problema não é esse; o problema é que filmes que terminam em pôr do sol são incrivelmente bregas. Pode ser também que o meu filme seja daquele estilo que os estudantes de cinema tanto gostam, onde os atores entram mudos e saem calados e, nesse meio tempo, acontece um monte de coisas com significados incompreensíveis para a grande maioria dos espectadores, mas inteiramente cheios de verdades para os que fizeram o roteiro.
A gente vai esperando se adaptar com a velocidade do universo quando percebe que o universo há muito nos engoliu: minha avó já não mora mais comigo, não existe porteiro na minha nova casa e na hora da novela eu estou fazendo algo que não me permite assistir TV. E daí rola aquela expressão de gente olhando para uma obra de arte surrealista, fingido que está tudo sob controle, mas por dentro louco pra saber o que aquilo quer dizer.
Talvez o grande problema, o maior problema de todos, o Big Problem, seja pensar vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, ininterruptamente questionando cada passo do nosso amigo: o Homem, ao mesmo tempo andando ao lado dele, correndo quando ele corre, sentando quando ele senta. Fazendo meia hora de esteira da humanidade antes de começar a musculação.
“Isso não vai dar certo”, diagnosticou, outro dia, meu pai. “Você vai acabar enfartando antes dos trinta”. Que seja, então. Talvez eu já esteja preparada.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 8:04 AM
terça-feira, maio 14, 2002
Crise
Ela levantou cedo e foi até a janela para ver como estava o tempo. Afastou as cortinas e constatou que fazia sol e que deveria estar um calor danado do lado de fora, mas não foi por isso que voltou a se deitar. Ainda com o quarto todo fechado acendeu um cigarro e ligou o som. Estendia a mão para bater a cinza e voltava a tragar sem grande entusiasmo, somente pela obrigação de fumar de manhã. Fixava um ponto na parede pensando no que tinha para fazer, e ficou irritada ao descobrir que não havia nada.
Era sábado, o sol estava muito forte, a sua conta bancária tinha o suficiente, mas não ideal - como todo o resto do mundo. E nada para fazer. Tinha vinte e seis anos, um carro e uma casa no campo – e, ainda assim, nada para fazer. Os amigos começariam a ligar em breve, chamando para programas que iam do passeio no museu às compras no shopping. Mas o tédio... o tédio.... o tédio....
Quando as costas começaram a doer por causa da posição, ela pensou em se levantar. Era hoje o dia da entrega do prêmio Nobel, a final da Copa do Mundo, o seu casamento, o batismo de sua afilhada, a festa do ano, o último dia antes do mundo acabar, o aniversário de sua tia, o pagamento da diarista, a eleição pra presidente – não, o segundo golpe militar – o enterro de seus amigos de faculdade que haviam morrido num desastre de avião. Era o sábado de todas as coisas, e ela mal conseguia esticar a mão para bater a cinza do cigarro.
Sentou na cama e depois ficou de pé; caminhou até a sala e lá ficou olhando os rostos conhecidos das fotografias antigas. Havia um monte delas espalhadas no sofá: algumas daquelas pessoas haviam desaparecido de sua vida e não faziam a mínima falta, outras estavam para desaparecer apesar de muito presentes no seu cotidiano e umas poucas resistiam bravamente ao desgaste da convivência de anos. Ela já teve o cabelo longo, curto, preto, vermelho, e agora estava ficando com alguns fios brancos e uma cabeça quase loura. Sem sombra de dúvida estava melhor agora do que antes. Podia se considerar uma adulta, controladora de seu próprio destino, realizadora dos seus sonhos, senhora de seus desejos. Mas a angústia... a angústia... a angústia...
Amanhã seria domingo e, depois, mais uma segunda. E os dias estavam pingando, e as horas vinham rápidas, e o prazer passava longe, mas ficava perto o suficiente para que ela soubesse que ele existe, mas está fora de alcance. Ainda havia uma pilha de livros pra ler, presentes de uma amiga preocupada. Ela estava curiosa quanto a alguns títulos, mas não começava um novo enquanto não terminasse o começado. Era um método. Pensou que foi dessa maneira que havia se tornado uma adulta: passo a passo, metodicamente, com segurança, mesmo achando tudo aquilo uma palhaçada.
Há dois fins de semana atrás, ela estava bebendo Kir Royal e cheirando pó com meninas magras e amigos interessantes. No dia seguinte acordou de ressaca, mas levantou e foi pedalar. Há um fim de semana atrás, ela estava bebendo Blood Mary e de novo cheirando pó, mas já não era a Mulher Maravilha, e as meninas eram todas anoréxicas, e os amigos eram todos artistas sem talento que falavam de Nova Iorque como se fosse ali na esquina. Hoje era mais um fim de semana e ela sentou no sofá e, sem saber por quê, começou a chorar compulsivamente, quase vomitando de tanto soluçar. Queria levantar e preparar o café, para, quem sabe, encontrar pessoas no calçadão da praia movimentada. Mas o descontrole... o descontrole... o descontrole...
Unknown 7:53 AM
terça-feira, maio 07, 2002
Meu Amor Platônico
A única coisa que vem trazendo um pouco mais de humor aos meus dias é o meu amor platônico. Estar amando o meu amor platônico não é como amar a qualquer outra pessoa, porque o meu objeto de adoração é simplesmente perfeito. É claro que ele tem milhões de defeitos, mas eu ignoro-os todos e me concentro nas qualidades.
O meu amor platônico tem um charme que é só seu. Ele fala apenas coisas sensatas e inteligentes, e ainda cuida de mim como se eu fosse um bichinho de estimação. Eu o olho com cara de cadelinha basset, e não me importo com o que isso possa representar na escala de valores das mulheres absolutas, como eu. O meu amor platônico vai de encontro a tudo o que se falou sobre paixões inatingíveis antes. Ele é contra todo e qualquer lugar comum.
Não revelo a identidade dele nem sob tortura. Tenho medo de que o meu muso tente dar um passo a mais – fruto na fome insaciável masculina – e destrua essa delicada teia que se formou entre nós.
Quando converso com meu amor platônico, ouço suas palavras, mas também presto atenção aos movimentos dos seus lábios e imagino coisas que fariam minha vovó corar. Tenho certeza quase absoluta de que meu ídolo, em sua imensurável sabedoria, consegue ler meus pensamentos e está a par de meus desejos carnais.
Que, aliás, não devem se realizar, jamais. Porque se isso acontece, o meu amor platônico se tornará tão humano quanto o resto das minhas 300 possibilidades de paixão, e assim cairão sobre a minha cabeça os defeitos que evito enxergar e milhões de outros problemas, de ordem prática, surgirão. Não quero, não quero, não quero. Deixem o meu amor platônico como está: passando por mim todos os dias e me cumprimentando com um rápido bom-dia, moldado num sorriso enigmático.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 7:50 AM
sábado, maio 04, 2002
Compreensão do mundo
Por Bruna Paixão
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 1:48 PM
Máquina
Sou uma máquina de escrever que pensa ter pernas.
Um dia, fujo desse cartório e vou trabalhar nos roteiros de cinema.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 1:36 PM
A Loucura da Velha
A velha sentou na ponta da cama com os olhos cheios de lágrimas. Muito solene, olhou para neta e sentenciou: “Estou louca.” A neta não respondeu nada, ficou observando as rugas da velha empoçadas, cheia de vontade de limpá-las, mas não se atreveu a pegar o lenço. A seu lado estavam fantasias de carnavais passados, com babados e muitos brilhos, espalhadas sobre a cama.
A velha passou a mão pela cabeça com poucos cabelos e tornou a dizer: “Estou louca, você não percebe?” Estava aflita com a sujeira embaixo das unhas grandes, e tentava livrar-se daquela linha preta entre a pele e a unha, sem muito sucesso. “Ontem, quando acordei,” – continuou – “estava usando um turbante de baiana. Por favor, tire isso de perto de mim.”
A neta, obediente, guardou as fantasias na parte de cima do armário. “Aí não”, ordenou a velha. “Guarde essas coisas num lugar onde eu não possa encontrar. Esconda.”
A mania havia começado há cerca de um mês. Tirava as quinquilharias carnavalescas do armário e ia à padaria comprar pão. Na primeira vez, o padeiro, que a conhecia há muitos anos, fingiu não perceber. Mas quando ela foi se afastando, ouviu o comentário da caixa: “Essa aí está esclerosada de vez.” Aquilo a magoou profundamente. Mas, dois dias depois, lá estava ela novamente, usando um vestido de rumbeira.
Tornou-se a piada do bairro. Chamavam a velha de Carmem Miranda na sua frente, porque ninguém tem mesmo muito respeito por gente maluca. E a loucura dela já era consenso entre os moradores e até parentes. As únicas que custavam a acreditar eram a neta e ela mesma. Porque ela sabia exatamente o que estava fazendo; só não sabia porquê. Tinha exata noção de que ninguém vai comprar pão com uma saia de cigana, nem com máscara de bate-bola, nem com lágrima de pierrot desenhado no rosto. Sabia porquê estavam olhando pra ela. Mas não conseguia evitar. Era uma necessidade tão indiscutível quanto levantar da cama todos os dias. Tem que comprar pão fantasiada porque tem. E não procurava argumentar consigo mesma.
A neta achava que isso tinha a ver com os antigos carnavais da velha. Achava que, na verdade, era uma espécie de sonambulismo que ela tinha. Acreditava que ela sonhava com os bailes de seu tempo de jovem e acabava se vestindo, ainda adormecida. Observou que assim que chegava em casa, a velha tirava os adereços e colocava seu vestidinho caseiro. E se sentava para bordar na frente da TV, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. A neta não tocava no assunto, para não a despertar daquele sonho bom. Deixava que a velha acordasse sozinha. E isso acontecia com rapidez, logo que pisava em casa.
Tudo poderia ficar tranqüilamente do jeito que estava se não fossem os meninos da rua. Começaram a tratar a velha mal. Quando ela passava, eles gritavam: “Velha maluca, velha maluca!” Depois, não contentes com isso, passaram a jogar pequenas pedras nela, só pra incomodar. Esses meninos não tinham mesmo nada o que fazer. A velha parecia que não percebia nada, mas quando a neta viu a provocação dos moleques, ficou desesperada. Pediu aos garotos que deixassem a velha em paz, porque se fantasiar era uma das poucas coisas que ainda lhe davam prazer. Mas, criança é fogo, ainda mais mal-educada... Ignoraram o pedido.
A neta, então, contra a sua vontade, teve que falar com a velha. Temia que numa dessas brincadeiras de mau gosto eles a ferissem. Por isso, decidiu que aquela mania de se fantasiar tinha que ser cortada.
A velha não discutiu. Sabia que a neta estava certa; ela sempre era muito sensata. Guardou suas fantasias no fundo do armário, dentro de um saco de lixo amarrado, dificultando, assim, o uso dos apetrechos.
Não conseguiu se afastar por muito tempo. Num acesso, rasgou o plástico que encobria seu tesouro, espalhou pela cama o conteúdo e, cerimoniosamente, pegou o adereço que mais gostava: o turbante de baiana.
Colocou-o na cabeça e olhou-se no espelho. Estava muito bonita, porque, apesar das rugas, tinha os mesmo olhos de cinqüenta anos atrás. E, principalmente, tinha o mesmo brilho. E o seu brilho combinava direitinho com o dourado do turbante de baiana, valorizando seus ralos cachos brancos na altura da nuca.
Saiu de casa mas não foi comprar pão. Foi passear pelas praças, meio sem rumo mesmo, porque estava muito feliz. Esse afastamento forçado das suas queridas fantasias havia deixado a velha imensamente melancólica durante vários dias seguidos. Quem não usa fantasia não pode ter a mínima idéia da felicidade que é andar por aí de turbante de baiana na cabeça. Por isso a achavam maluca. Mas no dia em que as pessoas começassem a usar adereços carnavalescos, o mundo ia ser muito melhor. Nada de guerra civil em países da África. Nada de brigas religiosas/raciais/sociais. “Make the world a better place, for you and for me”, ela cantava. Pena que ninguém entendia.
Acharam a velha num parque a vários quarteirões de distância de casa, quando já estava anoitecendo. Ela estava dormindo sentada num banco, sem os sapatos, com os pés esfolados. Levaram-na pra casa da neta, que a colocou deitada na cama, sem deixar que a despertassem. Ela dormiu profundamente, e só acordou no dia seguinte.
Ficou assustada com a história de que havia sido encontrada dormindo num banco distante da segurança de casa. Por isso, obrigou a neta ao ato drástico de a colocar sob observação, como uma viciada em fase de recuperação, ou como um bebê que não tem noção da altura da janela. Depois que a neta recolheu a bagunça do quarto e guardou aqueles objetos perigosos, a velha tornou a deitar-se. Já não tinha muita certeza se valia a pena levantar da cama todos os dias.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 11:35 AM
quarta-feira, maio 01, 2002
Domingo
O homem estava sentado em seu sofá de imitação de couro naquela tarde de domingo. O dia tinha passado lento e sem novidades, e agora ele estava assistindo a um programa de auditório, onde os telespectadores mandavam seus vídeos caseiros para fazer piadas de suas vidas.
Ele não sentia nada. Olhava, com aquele cansaço que lhe era normal. Cansaço do trabalho que recomeçaria cedo na segunda feira. Cansaço da mulher e da filha, cansaço. E ainda por cima, não poderia fazer nada para provocar reação. Bem que gostaria. Mas a vida, sabe, esse ridículo amontoado de anos, dias e horas, tinha mostrado pra ele que sua função no mundo não era sentir nada, a não ser o couro quente de seu sofá.
Bem lá dentro, no entanto, ele pensava. Sabia que não era só aquilo. Sabia que dentro dele estava adormecido o monstro e o anjo, que a sua alma existia, apesar de calada, e que um dia, mesmo que fosse à beira da morte, ela retornaria ao seus olhos, sua boca e seu coração. E então, num grito sem fim, ele poria pra fora tudo o que acha do o mundo, tudo o que o faz continuar sentado no sofá sem pensar em nada e sem agredir nem amar. E esse grito acordaria os vizinhos do apartamento ao lado, e então ele não seria mais obrigado a dizer “bom dia” para eles no elevador, nem desejar boa sorte a alguém, quando esta pessoa precisasse de tudo, menos do “boa sorte” dele, e assim ganharia a tal da liberdade que sempre ouvira falar mas que nunca vira em carne e osso, representada por nenhuma vida racional ou não.
“Nem bicho é livre”, surpreendeu-se. Se ajeitou no sofá, desconfortável. Olhou para a mulher, que costurava na mesa de jantar, e depois para a filha, ocupada com o telefone. Ora, o que fazer? Amanhã era passar no banco e pagar a escola e a conta de luz, e sorrir para a caixa loura e bonita que ele nunca chamaria para sair. Se bem que, se chamasse, ela iria. Iria? Até que não era de se esnobar. Uma barriga que despontava por baixo da blusa, a careca que (ele esperava) não iria avançar mais do que isso, quase 53 anos. 52 e dez meses.
Olhou para o relógio, nem dez horas eram ainda. Levantou-se devagar, para fazer o tempo render, e caminhou até a cozinha. O chão da sala, encerado, manchava a sola de seus pés com uma cera vermelha. Não tinha pensado o que faria na cozinha, foi o instinto que o guiara até ali, pronto para fazer um lanche. Abriu a geladeira e pescou um pedaço de carne fria, comendo com a mão mesmo, para a mulher não reclamar de ter que lavar a louça depois. Mastigou o pedaço de carne devagar, com o mesmo prazer com que uma criança come chocolate, deixando um pouco da saliva escorrer pelo canto da boca, excitando-se nessa brincadeira de sentir a carne no céu da boca, na língua, contra os dentes. Aquela rápida escapulida e o lanche furtivo, meio escondido da mulher, foi o que ocorreu de mais prazeroso no domingo. Mais até que a cerveja com o time de futebol que nem jogava mais, já se encontravam direto no bar.
Pensava na caixa loura do banco. Ah, se tivesse 20 anos. Foi de repente que acordou assim, barrigudo e careca. Engraçado como se lembrava exatamente de tudo o que havia acontecido no colégio, e depois na adolescência, até o casamento e o nascimento da filha. Depois, só um branco esquisito, e essa sensação de que acordou um dia com 50 anos. E depois 51. E depois 52. Assim, pingado como torneira com defeito, incomodando, precisando de concerto para parar de fazer aquele barulho irritante de água contra o metal da pia, ecoando pela apartamento, sem deixá-lo dormir. Não que quisesse morrer, nem pensava sobre a morte. Mas é que batia aquele cansaço de ter que trabalhar na segunda feira, e pagar a escola e a conta de luz, mesmo que pudesse ver a loura gostosona da agência. Nem ela compensava mais a rotina que o aguardava daqui até uma aposentadoria remota, que mesmo assim, culminaria em outra rotina, ainda mais cansativa que a que ele já conhecia.
Voltou para o sofá ainda com o gosto da carne na boca, como se ela tivesse sido um sonho distante, nunca real. Sentou calmamente, o programa da tv havia terminado, mas logo começaria outro muito parecido. Sentiu-se bem, seguro. A mulher ainda costurava, a filha agora fazia a unha. Poderia, então, voltar ao estado inicial de inofensiva lombreira, recostado nas costas de couro quente do sofá, com os pés em cima da mesa, braços cruzados sobre o peito. Aumentou o volume da tv; o apresentador do novo programa tinha começado a falar.
14/05/00
Unknown 7:27 AM
O Banho
Quando estava triste, gostava de tomar longos banhos, como se a água que corria do chuveiro lavasse não só seu corpo, mas a sua alma, e as nódoas pretas de rancor que estavam grudadas em seu coração, como nicotina na parede dos pulmões. Ficava encostada na parede do banheiro, a água pelando escorregando no corpo para morrer no ralo, suja e vulgar, tão diferente do imaculado líquido que descia do cano. E sempre ouvia alguma música, e cantava com alegria, e ficava mais triste quando a letra lembrava ela mesma, e às vezes até chorava, com o rosto enfiado na corrente de água.
O banho era seu ritual. Depois de passar horas pensando em tudo o que a deixava desanimada e angustiada, se levantava da cama num esforço sobre- humano- como se nesse movimento ela fosse mudar sua vida inteira- enxugando as lágrimas que insistiam em pular dos olhos, e se dirigia ao minúsculo banheiro no fim do corredor. Então, bem devagar, valorizando cada movimento, ela ligava o gás do aquecedor e, ajustando o botão na potência máxima, deixava a onda de calor tomar conta do ambiente. Depois, era ligar o radinho acomodado em cima da pia e aproveitar o único momento realmente seu, quando ignorava o resto do mundo, até que a última espuma caísse dentro do poço sem fim que era o ralo.
Nunca entendeu o porquê dessa mania de banhos, nem sabia como isso tinha começado. Talvez fosse uma maneira de passar o tempo, já que estava sempre esperando o próximo minuto começar. Talvez acreditasse que depois daqueles preciosos instantes a sós consigo mesma iria voltar novinha em folha, pronta para o que o mundo reservasse, cheia de coragem. E a verdade é que realmente se sentia assim ao sair do banheiro. Olhava-se no espelho demoradamente, admirando sua força e capacidade de recuperação.
Só que a paz durava apenas alguns minutos. Depois, como um peso jogado pra cima e que voltava com força triplicada, a tristeza a invadia de novo, tomava conta de tudo, e mais uma vez ela se estirava na cama, os olhos fixos na parede do quarto. Outro banho não podia tomar, pensava no ridículo dos sucessivos e compulsivos momentos debaixo da água corrente. Então, para espantar a melancolia de novo, inventava que a água encanada vinha de uma floresta escondida dentro da parede do apartamento, cristalina, com poderes medicinais?, ou com um arco-íris, como naqueles desenhos animados em que o final sempre era feliz, como se isso pudesse acontecer. Antigamente gostava de acreditar que o natural era um bom final, e que a felicidade estava destinada a todos os seres humanos. Mas logo percebeu que o fim dos romances que lia vorazmente em seu quarto eram, na verdade, o início de uma outra situação; situação essa que uma hora ou outra iria acabar num final inevitavelmente triste como é o fim involuntário de todas as coisas. Mesmo que esse fim fosse a morte, o certo é que ele viria, ditatorial, imprevisto, como lâmina de faca de legumes que sem querer corta a ponta do dedo. Ela lembrava do dia em que ficou segurando o tampo do dedão enquanto olhava para o sangue abundante da ponta do dedo. O que fazer, então? Tentar juntar os dois pedaços? Ela sabia que nada adiantaria, e que a única solução era jogar fora aquele pedaço de pele que fizera parte de seu dedo, porque uma hora ou outra o dedão iria parar de sangrar, e então ela poderia voltar à vida que sempre tivera.
Mas por que, meu deus, tinha que levar tudo tão a sério? Seria o medo da morte? O medo de um dia acordar morta, se é que isso já não é um paradoxo. E o pior é que, de qualquer maneira, a sensação de tempo perdido se alastraria como uma erva venenosa nas margaridas da vovó, tão lindas, debaixo de todo aquele sol de inverno. Ah, se ao menos não fosse mulher! O problema era que achava um sentimento em cada detalhe do mundo, e a ele dava um valor de universo. Gostaria de admirar as coisas pelo sua importância real, mas não conseguia. Não, para ela o valor de qualquer coisa estava diretamente ligada ao tamanho que isso ocupasse no mundo. Por isso, o mais simples alfinete tinha que ter uma alma do tamanho de um castelo, para que se explicasse a sua existência .
Ficou olhando para os móveis do quarto, depois para no radinho tocando alto, e para o telefone insistentemente mudo. Não havia saída. Só o mundo mágico das tubulações de água.
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 7:24 AM
Nancy
Nancy era gorda, pesava mais de cem quilos. Suas pernas fortes e escuras carregavam todo aquele peso com uma certa dificuldade. Afinal, já eram 90 anos. Sua pele parecia uma mistura de escamas e rugas pretas; na cabeça um pano enrolado pra proteger os ralos cabelos de negra, que agora conveniou-se chamar de étnicos. Mas ela não entrava em questões raciais. Nascera quase escrava, e agora era uma pessoa livre como quase todos os que moravam perto dela, quase todos negros também, mas poucos com 90 anos.
Nancy trabalhava muito desde que lembrava de existir. Nunca tinha parado, e parar não lhe agradava: parecia que morreria. Ela gostava de acordar de manhã e lavar o banheiro da casa de outra pessoa que a chamava de babá, ela nunca soubera por quê. Nunca foi babá de ninguém, nem gostava de crianças, mas quando o patrão chegava em casa, gritava entusiasmado: “Dona Nancy, só você pra cuidar de mim assim!” e provava a sua comida como se fosse chocolate, dando gemidinhos assim ridículos de prazer, revirando os olhos e passando a língua nos lábios. Era desse modo todos os dias, desde que tinha começado a trabalhar naquela casa. Depois de tantos anos, essa cena repetida fazia com que ela imaginasse o patrão sofrendo um enfarte, a mão no peito, gritando por ajuda. E ela, aproveitando-se de sua pequena surdez de velha, fingindo que nada percebia: quanto pior a cena, mais divertida.
Seu orgulho mesmo vinha do nome. Achava bonito ter em seu nome uma letra que nem fazia parte do alfabeto brasileiro - o y. Quando aprendeu a escrever, lá pelos seus 40 anos, exagerava bem no y, fazia-o maior que todas as outras letras, inclusive a importante letra inicial. Queria que todos os seus nomes tivessem um y também, porque esse lhe parecia como um caminho que se divide em dois. Ou seja, duas possibilidades, duas escolhas, o paraíso. Não gostava de lembrar que já estava no final da vida, e que todas as escolhas que poderiam existir já tinham sido feitas, e que para ela não restava mais nada a não ser esperar a morte. Não gostava de pensar, pensar sempre lhe trazia uma forte dor de cabeça e de rins, sua respiração ficava pesada, o desânimo a dominava. É claro que já tinha percebido que nunca tinha sido feliz, mas pensar sobre isso era uma forma masoquista de se arrastar pelos dias.
Além do mais, o que se fazer quando se percebe que não existe felicidade quando já se tem 90 anos? Uns dizem que nunca é tarde para tentar alguma coisa, mas esses, com certeza, não chegarão em idade tão avançada. Só sobrevive até lá quem escolhe seguir em frente, envolvendo-se pouco, passando à margem do universo. Nesse estado de feto, envolta numa placenta imaginária que a protege do terrível mundo lá de fora, Nancy passava os dias e as noites cozinhando, passando lavando. Não tinha parentes, marido ou filhos, era só no mundo todo, por isso seu quarto de fundos era suficiente. Dormia no emprego para poder, assim, cuidar melhor do patrão, que já era um cinqüentão, solteiro e meio cafajeste, daqueles que passam gel no cabelo e chamam meninas de vinte anos para ir ao cinema. Pobre dele, Nancy pensava, que se debatia com a sua barriga e com sua calvície, cada vez maior. Pobre dele. E ela se deitava e ficava olhando o céu sem pensar em nada, apenas olhando, olhando, olhando até dormir.
Um dia ela sonhou. Era gorda e velha, mas podia sair dançando por aí sem ter que se dobrar de dor. E então apareceu o patrão, com seus braços abertos num abraço que ela conseguiu escapar. E então ela derramava sobre ele café quente, e ele urrava de dor, e ela fingia que não ouvia e saía pela rua rindo, rindo, os pés descalços, a cara desafiadora. Quero ver, agora, quem vai me dizer que não posso.
Então ela chegava numa bifurcação florida. E ela percebia que, na verdade, esse era o Y de seu nome todo enfeitado, em festa. E a paisagem era toda composta de Y: um galho, um ossinho de galinha, um passarinho de asas abertas. E depois, as casas, os carros, uma cama, o penteado da menina, tudo no mundo era a sua letra, especialmente desenhada para ela.
Ganhou uma coroa de ouro com Y desenhado, sentou num trono e proclamou: “Eu sou nancY”.
Dia seguinte, manhã, ela morta. Comoção do patrão: “Adeus babá. Quem vai cuidar de mim agora?” Ela, nada. Impassível diante do desespero. Calmaria e sossego, o corpanzil estendido na cama apertada. Pela janela se via, lá fora, as casas pobres se estendendo morro acima.
19/05/00
*brunapaixao@hotmail.com*
Unknown 7:22 AM
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Atenç?o: isto n?o é um di?rio////
Pesando: 55 Kg.//
Gastando: com nada. Os amigos pagam pra mim :)///
Pensando: Sobre a muito bem vinda leveza do ser.///
Lendo: CRIME E CASTIGO, Dostoievski e TR?PICO DE C?NCER, de Henry Miller
AVISO!!!!!!!!
Agora estou em www.mulherzinhagirlie.blogspot.com
Até que alguma boa alma do Blogger conserte as minhas atualizaç?es.
APARE?AM POR L?!!!
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