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Pequenas Observaç?es sobre Coisas sem Importância

     

terça-feira, outubro 29, 2002

 
Eu sou a anti-musa

Outro dia um amigo me mandou flores virtuais. Acompanha o seguinte texto: “Não foi à toa que te mandei orquídea epidendro. Trata-se da mais terna entre as flores amazônicas. Segundo os índios Yanomamis, elas servem para inspirar nossos sonhos e amores. Seu perfume é detectado há quilômetros de distância. Para tanto basta fecharmos os olhos, nos aproximarmos e inspirarmos profundamente. Quer tentar? Beijos.” Foi a primeira vez na vida que recebi flores de um admirador. Porque esse cara não é nem nunca foi meu namorado – e mesmo quando estava namorando, tive que obrigar um dos meus ex a me dar um buquê de rosas...

Anyway, foi a primeira vez que recebi flores, e ainda acompanhado de um texto desses. Por um momento, enquanto eu lia aquelas linhas, eu me senti uma espécie de Liz Taylor, ou Catherine Deneave, ou melhor do que todas elas, Ingrid Bergman. Porque a Ingrid Bergman tem um ar terno que nenhuma das outras têm. Eu me senti uma musa.

Sempre achei incrível aquelas meninas que despertam a admiração dos homens. Que fazem com que cada um deles se transforme em um Olavo Bilac reencarnado, e saia declamando poesias apaixonadas. No meu círculo de amizades, posso dizer com toda certeza que 70% são homens – o que me faz uma mestra em companhia masculina. E eu sempre ouvi meus amigos machos falando de certas garotas coisas como “meu deus, ela é linda” ou “essa menina é maravilhosa” ou “muito gatinha” etc etc. E, nessas ocasiões, eu ficava me perguntando se alguém falava algo do tipo quando eu passava – fora, obviamente, peões de obra (até porque esses falam pra todas as mulheres, e não só para as que eles realmente acham lindas e maravilhosas, etc).

Depois de pensar muito sobre o assunto, descobri que não, eles não falam isso de mim quando eu passo. Porque eu sou a anti-musa. Eu tropeço quando quero andar com estilo. Eu geralmente estou de cabelo despenteado. Eu fico muito sem graça quando sinto um olhar fixo em cima de mim. Enfim, eu não possuo nenhuma das características necessárias para ser um daqueles objetos de desejo inalcansáveis.

Já lamentei bastante minha falta de talento para musa. Já tentei criar um estilo distante, blasé e misterioso. Ficou ridículo e eu cansei, porque é muito cansativo você ficar fazendo tipo vinte e quatro horas por dia. (O engraçado é que depois que eu parei com isso, teve gente que me chamou de Femme Fatale. Hehe, que ironia). Agora, sinceramente, não dou tanta importância pra isso não. É claro que adorei receber flores virtuais e elogios como aquele, mas fico tão sem jeito quando isso acontece! Descobri que eu sou a caipira da cantada. O cara me canta e eu fico vermelha e não sei o que responder – e eu já tenho 25 anos, era hora de eu ter aprendido alguma coisa.

Como não podia deixar de ser, eu tenho amigas que são musas. Que recebem presentes caros de caras com quem nunca ficaram. Que recebem flores de admiradores secretos. Eu observo tudo aquilo fascinada, e percebo que elas demoram muito mais tempo para ficarem prontas pra uma festa que eu. Perfeição requer trabalho árduo. E eu sou tãããão preguiçosa quando se trata de perfeição estética! Cremes, massagens, salão de beleza, unha feita – isso tudo me enche de tédio. Não tenho tempo pra rituais pós banho. Não tenho dinheiro para banho de loja. E, de repente, eu entendo porque sou a anti-musa. Uma questão de prioridades, baby, de pri-o-ri-da-des.
 
Eu sou She-Ra

Neguinho no meu trabalho não está acreditando. Contei hoje que estou fazendo a dieta das proteínas e que não estou comendo doces. Um dos meus coleguinhas perguntou: "mas vc também parou de fumar? Tudo ao mesmo tempo?" Eu disse: "amigo, eu tenho absoluto controle sobre as coisas da minha vida". E então ele sorriu.
Numa boa, essa é a verdadeira filosofia que leva à liberdade. Sei que não parece, já que eu estou me privando de vários prazeres terrenos - chocolate, nicotina, pizza - mas eles são tão pequenos em comparação com a minha insatisfação em relação aos meus dois quilos a mais.... Verdade, verdade!

segunda-feira, outubro 28, 2002

 
Sua vida
- dedicada a inho -

Ele chega em casa de saco cheio do mundo, se joga no sofá e toca uma punheta. Só pra ver se o humor melhora, ou se ele se esquece um pouco de tudo aquilo. Começa lembrando de uma menina, depois de outra, depois de ninguém especificamente: pega todas as melhores características de cada uma e junta tudo numa só. A deusa. Hoje de manhã tinha passado um email pra uma de suas garotinhas mandando ela ir pro inferno, e ela tinha respondido em um tom preocupado: o que está acontecendo com você? Você está triste? Estou tão preocupada.

Quando anda de metrô ele se senta no banco com as costas e tenta cochilar. Nunca consegue, porque sempre tem muita gente entrando e saindo, então ele fica olhando as pessoas. As mulheres. Pra passar o tempo. Obviamente o tempo não passa mais como antes, mas ele pelo menos pode catalogar o melhor daquelas mulheres e depois usar na próxima vez que se masturbar.

Não é raiva que o deixa assim, é um medo ridículo – o tipo de medo que as crianças têm quando está escuro. Ele diz que não quer ninguém mas da última vez que ela esteve lá tinha sido ótimo, um paraíso: ele até acreditou que estava apaixonado. Agora ele tecnicamente não tem mais ninguém, e consegue afastar as amiguinhas mandando-as pro inferno sem maiores explicações. Seria engraçado se ela dissesse: You go to hell, sucker! Mas ela nunca diria isso, em toda a sua meiguice cristã.

Ontem à noite ele estava satisfeito porque mandou seu chefe baixar o tom de voz quando estivesse se dirigindo a ele. O homem olhou entre desconfiado e perplexo, mas no final optou por não dizer mais nada e virar as costas. Foi uma glória. Mas uma glória muito rápida, porque agora ele já não acha que aquilo sirva de porra nenhuma para a sua vida. É que muita coisa está errada e nada acontece e é tão enlouquecedor esse estado de revolta paralisada.

Como as criancinhas que têm medo de escuro, ele acende sua raiva acreditando que assim estará protegido dos monstros. Não percebe que monstro interior é bem pior. Que come por dentro. Talvez ele precise de uma dose dupla de vodka pura uma vez ou outra. Quem sabe ele precisa entender que o problema é todo dele, e só dele. Ou talvez ele esteja mesmo necessitando é de uma viagem pra Cuba. Pra descansar nas águas transparentes de Fidel.
 
A huntergatherer está se sentindo aprisionada. Uma semana de Rio de Janeiro e dois quilos a mais. Outro dia liguei pro meu canadense preferido, em Jeri, e ele me disse que estava deitado na rede na varanda da pousada dele. "I hate you", foi a minha resposta. Era sábado, e eu estava trabalhando e tinha acabado de checar a minha conta corrente. Pela minha conta, outra viagem a Jeri não vai rolar tão cedo. Tentei convencer o canadense a vir pro Rio, usando o campeonato de WindSurf que vai rolar como abordagem, mas ele ficou falando as mesmas bobagens de sempre pra mim, até que eu mandei ele calar a boca. Acho que o que ele gosta mesmo é que eu mande ele calar a boca.

sábado, outubro 26, 2002

 
Melancolia no Cabresto

Desde que resolvi que a minha vida seria controlada por mim mesma, tenho levado a melancolia na base da rédea curta, sem deixar que ela tome espaço. Eu fico assim, manipulando no cabresto, achando que um dia ela vai desistir e vai embora, me deixando em paz com as coisas que eu quero manter por perto. Mas ela nunca se cansa. Às vezes eu acordo e me imagino dizendo “eu te amo” para alguém. Eu nunca vejo quem é, mas eu sei que isso é obra dela, da melancolia, e que ela só me mandou esse aviso pra dizer que ainda está por perto.

Na verdade, eu tomei essa decisão de domar o indesejado há relativamente pouco tempo. Talvez não seja tempo suficiente para que um vício suma. Eu tenho esse vício de pensar nas coisas de maneira triste e depois criar um milhão de histórias que geralmente agradam às pessoas. Nunca criei nada feliz, porque acho que a felicidade pode adquirir um ar de bobo alegre, assim como o amor. Uma coisa muito nhenhenhé. Prefiro o soco no estômago – mas daí, pra deixar que isso floresça e não acabe tomando conta, eu tenho que cultivar essa coisa dentro de mim, e tratá-la na base da rédea curta.

Ativar a melancolia é mais ou menos como fumar, pra mim. Eu disse pra uns amigos outro dia que não conhecia vida social sem um cigarro entre os dedos, porque desde que comecei a freqüentar bares e boates, eu fumo. É o mesmo com a parte negra da força: a partir do dia em que eu “pensei” de verdade, esse pensamento foi melancólico. E agora eu estou tentando deixar de fumar e de pensar pessimismos, mas posso afirmar com toda certeza que sinto mais falta de cultivar minha tristezinha do que da nicotina.

Está tudo bem, está tudo certo. Descobri que tenho todo o controle das coisas que acontecem na minha vida. E que eu levo a rédea da maneira que eu quero. Por isso nenhuma bobagenzinha deprê vai me tirar do sério mais, porque eu mando nisso aqui. Aliás, vamos ser sinceros, isso aqui é a única coisa em que eu mando. E é também a única coisa em que quero ser soberana.

sexta-feira, outubro 25, 2002

 
2003 e as promessas

Milhões de acontecimentos no mundo e eu com o meu livro de previsões astrológicas para 2003 debaixo do braço. Ganhei hoje e não resisti à tentação de ter o meu futuro desvendado. Meu ano em 100 páginas. Apenas isso. Li um pouco sobre mim mesma, concordando em algumas partes e negando veementemente outras.

Se fosse pra resumir 2002 com uma única palavra, eu diria: mudança. Toda hora. Quando eu estava me acostumando, lá vinha a vida e me puxava o tapete. No final, quando demorava muito pra eu ficar com os pés direto no chão, eu chutava o tapete pra longe. É assim mesmo, já que estamos aqui pra mudar, vamos mudar de verdade.

Olha bem como tudo aconteceu até agora: trabalhei de graça, gastei todos os dólares que trouxe de fora, fui contratada por uma grande empresa, declarei meu amor milhões de vezes e quis casar, comprei um carro, saí com todos os meus amigos, saí com meninos bonitos, fiz sexo casual, fiz sexo com amor, desenvolvi uma doença de pele causada por estresse, fui chutada e fiquei triste, perdi o emprego, recuperei o emprego, viajei, voltei de novo, não quero mais casar mas quero um monte de outras coisas. E o mais importante de tudo: perdoei, mais do que em qualquer outro ano da minha vida.

2003 nem bem apareceu na esquina e eu já reservo a ele as minhas aulas de mergulho e meus freelas. Mas eu não sou nada: tem gente que já está ganhando dinheiro com o ano novo, como esse autor do livro de previsões astrológicas. Ele está melhor do que eu, mas eu não saberia tirar vantagem do meu depósito de planos dessa maneira.

Hoje vou ficar em casa, por várias razões. Bom, principalmente porque nesse exato momento tenho apenas R$3 até o final do mês. Também porque estou a fim de assistir ao debate dos candidatos à presidência. E, finalmente, porque vou estudar o que os astros escreveram pra mim no ano que vem. Pra poder acreditar em algumas coisas e negar veementemente outras.


quarta-feira, outubro 23, 2002

 
Pouco espaço

Vou te dizer: dois blogs, um texto em cada um por dia. Isso aqui está pouco. Eu quero mais... Aproveitando que as coisas estão calmas no trabalho. Quero mais. Alguém pode me oferecer mais?

Tenho terminado todos os meus textos com perguntas.
 
Email Filosófico do Nick

O Nick escreveu pra mim. Era um email maluco que eu dei uma olhada rápida e resolvi ler com calma mais tarde. Bom, mais tarde finalmente chegou (que horror, quase uma semana depois) e daí eu vi toda a loucura e a filosofia daquela cabecinha. Ele me leu no texto dos filhos e entendeu tudo. E até me explicou um monte de coisas que eu ainda não tinha visto.

Diz o Nick: eu (e ele e mais alguns) sou uma huntergatherer, uma nômade, que vive cercada de pessoas que vivem como numa sociedade agrícola. Por sociedade agrícola a gente deve entender aquele tipo de vida rígida e cíclica: tempo de colher, tempo de plantar, essa terra e minha, aquela terra é sua e nós vamos dar de herança tudo isso pros nossos descendentes. Que, dessa maneira, farão com que o nossos nomes permaneçam nas nossas terras por muitos e incontáveis anos - quiçá eternos.

Isso não dá certo pro hunthergatherer. Um cara nômade aprisionado numa sociedade agrícola fica triste, frustrado, melancólico. O cara nômade precisa ser levado pelo vento; mas quando ele está na lógica do povo que quer colher os frutos, ele se sente culpado. Culpado por não estar perpetuando seu nome na sua terra, como querem os seus progenitores ou sei lá quem mais.

Mas nem nós, nômades (perceberam que eu já me incluo no meio deles?) estamos livres do que se repete, o Nick disse. Os padrões, segundo ele, são cíclicos. As pessoas não, essas passam, vão sendo levadas. Mas seus comportamentos e gostos e roupas reaparecem daqui a cinco minutos, na outra esquina. Não que isso seja necessariamente ruim. Também não sei ainda se é bom.

Ser hunther gatherer é o futuro? O Nick não me explicou. Mas eu acho que não. Não consigo ver tudo assim, relaxado, passageiro, novo. Só consigo ver essa coisa muito estagnada de vidas traçadas antes dos nascimentos. Bom, também nunca fui uma pessoa à frente do meu tempo. Eu acho que o nômade vai ser sempre aquele cara meio esquisitão, sabe, aquele que neguinho diz: ele está sempre sozinho. Será que dá pra ser nômade no mesmo lugar? Eu acho que dá. Se você nunca ficar muito ligado a um tipo de lugar, de pessoas, de rotina. Dá pra ser nômade sem sair do estado. Eu acho que eu sou um desses. Acho porque não tenho muita certeza do que eu seja por completo. Mas por acaso alguém tem?

terça-feira, outubro 22, 2002

 
Tirei. Tirei tudo o que estava escrito aqui.
O pior de você postar alguma coisa e depois se arrepender ou achar incrivelmente brega é ter que escrever qualquer besteira pra poder cobrir o espaço em branco.

E alguns "amigos" ainda dizem pra eu colocar esse blog no meu currículo... Queimação de filme!
 
Minha Avó

Minha avó me disse pra ter cuidado. Ela olhava pros lados e repetia a frase num sussurro que eu quase não conseguia ouvir. “É preciso ter cuidado”, ela repetia. Eu não sabia muito bem a que ela se referia, mas acho que esse tipo de conselho pode se aplicar a qualquer coisa na vida.

Minha avó agora usa um aparelho para surdez no ouvido esquerdo. É estranho, porque cada vez que alguém fala alguma coisa, ela olha para o lado em que o aparelho está posicionado. Eu tenho certeza absoluta que um dia usarei um aparelho desses, mas fico um pouco preocupada com esse problema de não conseguir identificar de onde vem a voz que está falando.

Minha avó foi proibida de estudar pelo seu pai. Era feio uma mulher estudar na época dela; era melhor que as mocinhas aprendessem a bordar e costurar. Mas daí, o pai da minha avó, que era um homem muito rico, perdeu todo o seu dinheiro. E depois ele morreu. Então ela resolveu fazer um concurso público e passou – foi ser funcionária do Ministério da Fazenda. A família ficou escandalizada, mas ela bateu o pé e ficou.

Quando todas as suas amigas já eram casadas e tinham seus filhos, minha avó conheceu meu avô. Eles freqüentavam o mesmo trecho da praia de Copacabana, e meu avô ficava admirando sua musa de longe. Um dia, ele tomou coragem e se ofereceu para carregar a cadeira de praia e o guarda-sol dela até sua casa, e a minha avó aceitou. Ela estava com 30 e o meu avô com 40 quando se casaram.

E hoje ela me diz pra ter cuidado. Ela que já enfrentou a família inteira para poder trabalhar, ela que já foi dondoca e tinha vergonha de tocar a sineta do bonde para descer no seu ponto, ela agora tem medo de qualquer coisa, e vira a sua cabeça na direção errada quando falam com ela. Minha avó já não tem mais meu avô, mas carrega seus 89 anos nos ombros. Eu olho pra ela e fico com medo também, porque de vez em quando ela fica muito triste com todas as desvantagens de ser velha. Ela não consegue enxergar as vantagens, simplesmente ficou cega para elas. Eu olho pro seu aparelho de ouvido, seus olhos muito abertos e fico me perguntando se eu conseguirei, um dia, envelhecer com toda essa dignidade.


 
Agora todo mundo já pode acessar meu mais novo blog:

Mulherzinha.com
Pra quem é mulherzinha e pra quem não é.

sexta-feira, outubro 18, 2002

 
Porque eu não sou uma filha da puta

Eu sou que nem os Alquimistas do Jorge Benjor: evito contato com pessoas de temperamento sórdido. Fujo desse tipo de gente como se fossem fantasmas, mas eles sempre conseguem chegar perto de mim. Alguns até tocam no meu ombro – o que provoca um arrepio que desce pela minha espinha. Mas a grande maioria fica mesmo é rodeando gente que convive comigo, gente que eu gosto. Isso me deixa louca.

Está difícil encontrar alguém que seja verdadeiro e não crie máscaras e jogos pra sobreviver. Será que só eu vejo que é muito mais interessante ser legal com os outros? Bom, talvez eu veja dessa forma porque simplesmente não sei ser filha da puta. Pode parecer estranho, mais isso é um grande defeito. A gente deveria desenvolver esse botãozinho de switch on e switch off da filhaputice. Viria junto com o botão do foda-se. Só que o meu botão de foda-se às vezes enguiça e fica parado só numa direção: ou eu não estou nem aí pra nada, ou todos as coisas têm a importância do universo. Mas o meu botão da filhaputice não veio; eu tenho defeito de fábrica.

Tem gente que desenvolve o mecanismo naturalmente. Basta que lhe pisem nos calos do ego que a coisa fica braba. Mas eu, coitadinha, sou sempre a boboca da situação. Fico olhando neguinho se dar bem com todas as sacanagens do mundo, e eu aqui sem nada nas mãos. Mas sempre de cara limpa, olhando de frente. No momento, tenho sérias dúvidas se esse tipo de vida vale à pena. Está me parecendo mais como vida de otário.

No momento em que eu fico descrente desse jeito em relação às pessoas legais, eu focalizo a Tailândia. Não a da bomba de Bali. Mas a que será meu rumo nas próximas férias. O bom é que se lá tiver filhas da puta eu não vou entender nada do que eles estiverem falando. Assim é mais fácil aturar gente escrota. Vamos fazer isso: desenvolver uma língua pra quem é bacana. Assim a gente só se comunica entre a nossa comunidade. E quem precisa de outras pessoas, quando só se tem gente legal em volta?


quinta-feira, outubro 17, 2002

 
Eu não quero mais ter filhos
(Um manifesto sobre almas gêmeas e a sociedade)

Foi culpa de Jeri, de novo. Eu andei por lá solta, solta, sem lenço, documento ou coração aprisionado. Foi opção minha não levar pra lá nenhuma lembrança. Mas é óbvio que o lugar contribuiu para tudo correr bem. Acontece que os meus melhores amigos durante a minha temporada cearense foram caras que faziam questão de não cultivar raízes. Isso significava ausência de casamentos ou noivados, e muito menos filhos. Nenhum desses exemplares da raça humana tinha qualquer tipo de preconceito em relação à união de duas pessoas. Não era essa a questão. Eles simplesmente nunca tinham conhecido alguém que os fizesse mudar o seu estilo de vida - apesar de alguns deles acreditarem que um dia isso inevitavelmente iria acontecer.

É que a vida deles não comporta mesmo crianças e hipotecas e prestações. Não comporta os problemas da família padrão. E, pelo o que eu observei dessas pessoas, elas sentiam pouca falta do estilo de vida que a maior parte da humanide tem. E eu entendi por quê. Simplesmente porque eles não tinham uma rotina trabalho - casa - chope com os amigos.

Se segurem, porque me caiu a ficha. O casamento, meus amigos, nada mais é que o complemento da vida que a gente leva. Ou melhor, da vida que a gente acabou sendo obrigado a levar. Exatamente como a dos nossos pais. Quando nascemos, nossas mamães já estão pensando em seus netos. Já estão nos vendo doutores, com diploma na parede e tudo. A nossa vida está traçada desde que pisamos nesse mundo, e mesmo que a gente tente se desviar dela acabamos voltando para os trilhos. Ou ficamos direitinho atrás do vagão, ou vamos magoar um monte de gente que nos ama, e que espera que sejamos "alguém na vida".

Daí vem todas aquelas cobranças pessoais para satisfazer o que nos foi imposto. Temos que arrumar um emprego. Mas não pode ser apenas um emprego, tem que ser um puta trabalho, bem remunerado e com chances de te fazer crescer profissionalmente. Ok, depois temos que arrumar uma casa. Mas não pode ser qualquer casa, tem que ser um lar com TV à cabo, ar condicionado e vaga na garagem. Passada essa etapa, time to have kids. Temos que gerar crianças sem problemas f'ísicos, capazes de vencer na vida como nós mesmo fizemos. Serão as crianças que, invariavelmente, suprirão nossas carências e defeitos (identifico no meu pai o seguinte pensamento: eu falhei na questão boa aposentadoria; minha filha não deve falhar aí).

E daí, pra tudo dar certo, a gente se cobra o casamento. Nos forçamos a encontrar o nosso "parceiro ideal", aquele que será pra vida inteira. Cara, isso vira uma caçada, uma busca desenfreada. Eu, pessoalmente, fico angustiada com essa busca. Cada vez que um relacionamento acaba, eu penso: "Ai, não, não era esse ainda...." Quer dizer, eu pensava isso. Porque agora não vou buscar mais nada. Chega. eu já trabalho numa das profissões mais estressantes que eu conheço; ainda vou ter que agüentar meu estressezinho existencialista? No way.

Já sei o que todo mundo vai dizer. Que eu não quero mais ter filhos porque estou sozinha. Que assim que eu me apaixonar de novo, vou ficar louca pra me vestir de branco e caminhar em direção ao altar. Pode ser; não é isso exatamente que me aborrece. O que enche o saco é essa busca. Essa procura. Essa questão de não ficar pra titia. I'm out of it.

Hoje eu me sinto uma pessoa muito livre, eu juro. E uma pessoa que tem liberdade pra mim não é alguém que pode beijar 300 bocas e fazer sexo com 300 homens e etc. É simplesmente uma pessoa que não tem amarras. Eu soube perdoar e isso me libertou; eu soube deixar de esperar, e isso me libertou de novo. E se hoje à noite ventar muito forte, vou parar no Japão. Flying away. Sem virar gueixa.

quarta-feira, outubro 16, 2002

 
I'm back

Depois de 15 dias fora do ar - sem checar emails, sem celular e sem saber o resultado das eleições - eu estou de volta. Mudada, é claro. aconteceu que eu conheci Jericoacoara, CE. Aquele é o lugar onde a impermanência das coisas vigora. Budistas devem ira para Jeri. Os não budistas também. Agora que eu voltei, tenho cerca de uns dez textos prontinhos pra escrever, um projeto de um novo blog e a certeza de que não quero ter filhos.

Conheci milhões de pessoas em Jeri - todos gringos - que passam a vida viajando de um canto a outro. Essas pessoas fazem amigos e se separam deles com a maior facilidade, se apaixonam e se separam sem achar que tudo isso é sofrimento, não morrem de saudades da sua vidinha em seus países. Eu invejo muito eles, mas juro que estou tentando chegar lá. Um dia eu vou ser a rainha do desprendimento. até lá, esse blog vai estar sempre bem alimentado com as angústias de uma burguesinha da região sudeste. É melhor eu aproveitar essa insatisfação antes que ela se desfaça de vez.

O Canadense

A primeira pessoa que conheci em Jeri foi um canadense de 39 anos que tinha um hotel, vendeu, e agora vive procurando WindSurf Spots pelo mundo. Eu estava sentada numa pizzaria com minha amiga quando ele se aproximou da gente e puxou conversa. De cara deu pra sacar que ele tinha um tremento Complexo de Peter Pan (mas quem sou eu pra falar alguma coisa; sei muito bem que sou um caso típico de Complexo de Sininho, se é que isso existe...). Mas o cara era engraçado e chamou a gente pra tomar um drink no Planeta Jeri, um bar da rua principal.

Nós fomos. Ele nos apresentoua meio mundo e depois nos acompanhou até a nossa pousada. Como não poderia deixar de ser, ele tentou um approuch na hora que foi me dar um beijo de boa noite, mas eu dei uma de Leão da Montanha e achei uma saída de emergência pela esquerda.

Apesar da investida mal sucedida, o canadense virou meu melhor amigo. Todos os dias, depois de velejar, ele sentava comigo na praia pra ver o pôr do sol. Ficava me chateando e falando as coisas mais sujas que alguém já disse pra mim, porque descobriu que eu gosto de Henry Miller. Ele falava essas bobagens e eu ria, ria, mas de vez em quando ficava de saco cheio e mandava ele calar a boca. O canadense ficava quieto por cinco minutos e depois continuava com a sua entrevista pornô. "Quantas vezes vc se masturba por semana?", "Já fez sexo com uma mulher?", "Gosta de usar velas?" e etc.

Um dia eu o beijei. Pra matar a curiosidade que todo aquele joguinho estava fazendo surgir em mim. Foi incrível, porque eu vi um cara de 39 anos se transformar em um menino de 19 com um simples tocar de lábios. E aí ficou por isso mesmo, e no outro dia a gente ficou hanging out na praia como sempre, com ele falando baixarias mais do que nunca e eu mandando ele se calar. E eu morro de saudades dele agora, e vou mandar um email falando desse texto, mas ele não vai entender nada porque é em português. I miss you, my best chato.

O Israelita (ou israelense?)

Não é exagero não, mas eu conheci o menino mais bonito de Israel. Ele namorava com uma suíça, mas depois ela foi embora e ele ficou de papo pro ar com a gente. Ele está viajando pela América Latina, e planeja vir pro Rio, o que vai ser muito cool mesmo. Bom, esse cara me oproporcionou dois dos melhores momentos de Jeri.

A primeira foi quando eu estava reclamando que tinha tido muito azar de ter nascido em um país de terceiro mundo, sem dinheiro pra viajar como todos aqueles gringos que estavam por lá. Eu estava cansada de ficar encontrando gringo que nem o canadense, que não trabalha e só fica velejando o ano inteiro. Fiz um rápido cálculo na minha cabeça pra saber quanto tempo levaria para parar de trabalhar se começasse a juntar dinheiro agora, e descobri que serei milionária quando tiver uns 70 anos (se eu não tiver filhos, é claro). Bom, eu falava disso pro israelita, e ele me disse: "Muchacha, olha em volta. De um lado você vê o canadense com seu equipamento de WindSurf e do outro você vê uma menininha vendendo cocada na praia. Eu te digo que do jeito que você come, se veste e fala inglês, você faz parte dos top 20 do mundo. Você nào tem idéia de como é estar na India, na África... Aquilo lá é serio. Eu já fui pra India, sei como é. E você tem piscina em casa! You are fucking rich, stop complaining." Nem preciso dizer o quanto me senti uma patricinha. Calei a minha boca.

A outra vez foi na minha despesdida. Eu estava tão chateada de estar indo embora, porque sabia que nunca mais ia encontrar aquelas pessoas, que estava com uma cara de choro. O israelita veio falar comigo. Disse:"A melhor coisa das minhas viagens até agora foi aprender a deixar as pessoas chegarem e irem embora, sem querer prender ninguém. Eu aproveito cada um o máximo que eu posso, porque aí na hora de se separar, eu estou pronto. Tive uma namorada na Colômbia que me fez sofrer pra caramba na hora que eu tive que deixá-la. Agora é isso: temos nossos emails, vamos nos falando. Quando quiser ir a Israel, me procure." Quase o pedi em casamento nessa hora.

As Suíças

As suíças eram duas meninas de 23 anos que passaram as férias no litoral brasileiro. Elas viajam todos os anos para fora da Europa, como dinheiro que ganham com estágios e trabalhinhos freelas. Desse jeito, de mochila nas costas, já conheceram quase o mundo inteiro. Enquanto eu ia do Rio a Fortaleza de avião, essas européias encaravam um buzum de Porto das Galinhas Jeri, equivalente a um dia inteiro de viagem. Enquanto eu fiquei numa pousada com diária a R$25, elas descolaram um quarto por R$15 (com ventilador). Desse jeito, contando os centavinhos, elas tinham visto mais do meu país que eu própria. Eu tenho essa coisa de aristocrata decadente: estava com o dinheiro acabando e mesmo assim nào conseguia deixar de comer um camarãozinho no restaurante em frente à praia.

Com o dinheiro que elas não gastaram de bobeira, compraram vários presentinhos pra família e pra elas mesmas. Eu nào comprei presente nenhum. As minhas lembrancinhas foram todas pra dentro da minha barriga, junto com o camarão. Eu realmente tenho muito o que aprender se quiser mesmo viajar pelo mundo afora.

O californiano

Ele chegou junto com as suíças. Os três se conheceram em Porto das Galinhas, e resolveram ir pro Ceará juntos. Esse cara é mochileiro de verdade: há um ano e meio não pisa nos EUA. Já rodou Ásia, África, Europa e agora América Larina. Tem histórias maravilhosas sobre banheiros nojentos na Índia. Diz que trabalhou como contador até juntar uma grana, chutou o trabalho e se mandou.

De Jeri ele ia para a Califórnia, assistir ao casamento de sua irmã. Depois, provavelmente seguiria para o México. Na hora da despedida, ele me abraçou sem dar grande importância, me passou seu email e foi embora. Nenhuma sentimentalidade. Eu estava toda derretida, falando "I don't belive you'r leaving" e o abraçava um milhão de vezes. Ele só dizia "Yeah Yeah". Me senti uma retardada. Mas acho que é assim que tem que ser. eu só conhecia o cara há cinco dias! Não era exatamente como se um pedaço do meu coração estivesse sendo arrancado.


Atenç?o: isto n?o é um di?rio//// Pesando: 55 Kg.// Gastando: com nada. Os amigos pagam pra mim :)/// Pensando: Sobre a muito bem vinda leveza do ser./// Lendo: CRIME E CASTIGO, Dostoievski e TR?PICO DE C?NCER, de Henry Miller AVISO!!!!!!!! Agora estou em www.mulherzinhagirlie.blogspot.com Até que alguma boa alma do Blogger conserte as minhas atualizaç?es. APARE?AM POR L?!!!

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